Um balaio de qualidade
Antonio Adolfo reúne seis décadas de criação musical em seu mais novo álbum
Aos 79 anos, Antonio Adolfo continua a beber de uma fonte de criatividade que parece inesgotável. Depois de gravar mais de duas dezenas de álbuns ao longo de uma carreira que ultrapassa seis décadas, o pianista, compositor e arranjador lança agora "Balaios" — uma autobiografia musical em nove movimentos, reunindo composições escritas em diferentes fases de sua trajetória.
O álbum, já disponível nas plataformas digitais, reúne cinco composições autorais e quatro parcerias com Tibério Gaspar, seu colaborador de longa data que faleceu em 2017. "Em muitos aspectos, um álbum também é um balaio. Nele, um músico reúne o que cultivou ao longo do tempo — ideias, memórias e melodias. Cada peça é cuidadosamente colocada dentro, moldada não só pelo momento em que nasceu, mas transportada para o presente com um significado renovado", comenta o músico.
O título refere-se aos cestos tradicionais tecidos e carregados na cabeça de mulheres de ascendência africana no Nordeste brasileiro — feitos de fibras naturais como cipó e palha, usados para transportar alimentos e mercadorias. Simbolicamente, carregam significado de trabalho, resiliência, ancestralidade e abundância. Na visão de Adolfo, cada álbum funciona assim: um recipiente onde o artista deposita o que acumulou ao longo dos anos.
A jornada começa com "3D Blues", composta em 1965, quando Adolfo tinha pouco mais de 20 anos. A faixa combina swing, baião e samba-jazz — uma síntese que se tornaria marca registrada de seu trabalho. "Claudia", parceria com Gaspar, captura o espírito do Rio de Janeiro do final dos anos 1960, com sua levada relaxada de bossa nova. Nesta versão, o guitarrista estadunidense Thom Rotella entrega um solo marcante.
"San Expedito" nasceu de dois quase acidentes automobilísticos próximos ao lugarejo de Santo Expedito, na via Dutra, quando Adolfo viajava com a família de Miguel Pereira para o Rio. "Sambalaio" funde samba e funk em um groove irresistível.
Escrita em 1980, "Love Will Come" ("Até Que Venha o Amor") recebeu um arranjo no estilo das quadrilhas juninas. "My Chant" ("Meu Canto"), última composição de Adolfo e Gaspar antes da morte deste último, é um jazz valseado.
"Vision" ("Visão"), de 1968, é uma balada envolvente que acumula uma rica trajetória de gravações. Taiguara, Agostinho dos Santos e o virtuoso da gaita Toots Thielemans (em álbum com Elis Regina gravado na Suécia em 1969) já a interpretaram. "Journey to the Interior" ("Caminhada"), originalmente escrita em 1967 com Gaspar, é um baião com harmonias sofisticadas de jazz que chegou à final do Festival Internacional da Canção de 1967. O álbum encerra com "Zah Toom Toom", tema instrumental de 1978 que remete ao som do bumbo no samba-funk dos bailes cariocas — uma mistura contagiante de funk, samba e improvisação que revela um artista em diálogo permanente com as mais variadas linguagens musicais.
Neste trabalho Adolfo é acompanhado por colaboradores de longa data: Lula Galvão (guitarra elétrica e violão), Jorge Helder (baixo acústico), Rafael Barata (bateria e percussão), Jesse Sadoc (trompete e flugelhorn), Danilo Sinna (saxofone alto), Marcelo Martins (saxofone tenor e flauta), Rafael Rocha (trombone) e André Siqueira (percussão). Além de Rotella, o saxofonista Leo Gandelman aparece como convidado especial.
Além de compositor e intérprete, Adolfo é educador. Fundou no Rio um centro musical que leva seu nome. Lá, onde desenvolveu métodos de ensino e publicou livros sobre harmonia, improvisação e linguagem da música popular brasileira. É ainda pioneiro da produção fonográfica independente no país, com seu disco "Feito em Casa" (1977).
Sua carreira reverbera no exterior. Recebeu uma indicação ao Grammy na categoria de Melhor Álbum de Jazz Latino em 2018 por "Hybrido: From Rio to Wayne Shorter" (2017). Seu catálogo inclui mais de 200 composições originais, muitas delas gravadas por artistas como Sergio Mendes, Herb Alpert, Stevie Wonder e Dionne Warwick no exterior, e Regina, Wilson Simonal, Maysa, Emilio Santiago e Evinha no Brasil. "BR-3", composta em parceria com Gaspar e interpretada por Tony Tornado, um clássico do soul à brasileira, venceu a 5ª edição do Festival Internacional da Canção, em 1970.