Memória e resiliência na voz e na pele

Cantora brasileira radicada na África Ocidental, Sarahysha traz ao Brasil pesquisa que une jazz, ritmos vodùn, psicodelia africana diaspórica e performance

Por Affonso Nunes

Radicada há quatro anos em solo africano, Sarahysha revela que mudou sua concepção sobre o fazer musical

Sarahysha chega aos palcos brasileiros com "Spiritual Biatch! - Corpo, Memória e Resiliência", projeto que articula afro-jazz, ritmos cerimoniais vodùn, psicodelia africana diaspórica e performance em uma experiência sensorial onde voz, corpo e improvisação são os elementos centrais da criação desta cantora, compositora e performer brasileira radicada no Benin desde 2022.

O trabalho nasce de uma trajetória marcada pelo trânsito entre esses dois territórios. Nascida em São Paulo, Sarahysha passou pelos circuitos underground de jazz paulista, pela noite da Augusta, e depois por experiências musicais no Caribe, França e Ilha de Reunião antes de se radicar no Benin. Esses deslocamentos geográficos e espirituais levaram a artista a aprofundar uma investigação sobre diáspora, feminino, dança e ancestralidade.

No Benin, o contato com músicos locais, ritmos cerimoniais e práticas vodùn transformou sua maneira de compor e cantar. Ela desenvolveu o que chama de "música manifesta", um processo em que a música aparece primeiro no corpo, depois ganha forma sonora. Em vez de partir da partitura tradicional, ela trabalha com o conceito de "partitura corporal", ou seja, a composição surge de sensações físicas, respiração, movimento e escuta interna.

"Minha música não nasce de uma forma pré-definida. Eu escuto os sons por dentro e depois vou esculpindo as ondas sonoras", afirma a artista. "É uma música de reconexão. Não necessariamente religiosa, mas uma música que religa o corpo a algo que está além do visível", destaca.

Em "Spiritual Biatch!", percussões tradicionais, baixo, bateria, piano, trompete e voz se encontram em uma formação afro-jazz que reúne músicos do Benin e do Brasil. A proposta articula improvisação, pulsos afro-brasileiros, harmonias contemporâneas e texturas rituais. Sarahysha investiga como memórias ancestrais podem ser ativadas pelo som e como o corpo guarda histórias, símbolos e potências criativas.

"O corpo e o canto são canais. No Benin, entendi com mais força que a música também pode ser escrita na pele, na memória, no movimento. A transmissão não está só no papel. Ela está no corpo", explica. Nessa perspectiva, Brasil e Benin não aparecem como passado e presente, mas como territórios simultâneos de criação.

Com mais de 185 mil seguidores no TikTok, a artista alcança um público diverso interessado tanto em sua pesquisa estética quanto em sua vivência como brasileira radicada na África Ocidental. O SB LAB - Creative and Cultural Production Studio, laboratório fundado por Sarahysha, articula tradição, contemporaneidade e circulação internacional, com foco em processos que conectam memória corporal, músicas afro-diaspóricas e novas possibilidades de cena. Seu trabalho pode ser conferido em https://www.youtube.com/c/SarahYsha.