Jorge Helder, o gigante do contrabaixo
Músico das bandas de Chico Buarque e Maria Bethânia apresenta releituras jazzísticas de pérolas da MPB no projeto Tudo é Som
Affonso Nunes
Oprojeto "Tudo é Som!", que funciona como um laboratório de encontros e improvisos musicais no palco do Manouche recebe nesta sexta-feira (10) o contrabaixista, arranjador e compositor Jorge Helder. A noite será dedicada ao repertório de dois gigantes da música brasileira: Chico Buarque e Djavan, em um formato voltado para o jazz.
Jorge Helder é figura central na música brasileira, ainda que nem sempre em primeiro plano. Cearense radicado no Rio desde 1986, ele acumula mais de 40 anos de carreira e uma presença constante em projetos de estúdio e turnês dos maiores nomes da MPB. Seu contrabaixo aparece em mais de 350 gravações, em álbuns de artistas como Caetano Veloso, Gal Costa, Roberto Carlos, Elza Soares e tantos outros que formam o panteão da música popular brasileira.
Essa atuação contínua o transformou em um dos instrumentistas mais requisitados do país — tanto que Maria Bethânia costuma apresentá-lo ao público como "o baixo mais disputado do Brasil", epítete que ganhou desde a turnê "Cartas de Amor", em 2013.
Contrabaixistas não costumam ser protagonistas de formações musicais. Suas notas soam imperceptíveis a ouvidos desatentos, mas pontuam a harmonia de um conjunto, ditando os tempos de som. E Jorge Helder é um mestre neste ofício. Com seu jeito simples e tímido, de espectro franzino em contraste com o 1,80 metro do instrumento que toca, ele se tornou realmente uma preferência nacional tanto nos palcos como nos estúdios. É conhecido pela disciplina: chega sempre 15 minutos antes dos ensaios e garante não fazer bagunça. "Só depois do trabalho", costuma brincar.
A parceria com Chico Buarque é particularmente emblemática. Desde 1992, Helder integra a banda do compositor e se tornou seu parceiro musical de longa data. A primeira música com Chico surgiu nas gravações de "Carioca", em 2006: "Bolero Blues", uma composição cheia de quiálteras — figuras que aceleram o andamento da melodia e provocam tropeços de notas e sílabas. O próprio Chico comentou em documentário sobre o disco: "O Jorge Helder me deu uma música impossível de fazer a letra". Essa relação se aprofundou ao longo das décadas: em 2024, Jorge Helder lançou o álbum "Samba e Amor: Jorge Helder Toca Chico Buarque", uma homenagem aos 80 anos do compositor que reúne oito canções assinadas por Chico em novos arranjos. O disco, lançado pelo Selo Sesc, reforça a admiração de Helder nutre pelo amigo, mas também sua capacidade de reinterpretar o repertório com sensibilidade e inventividade.
Apesar do currículo extenso, Jorge Helder lançou apenas um disco autoral em 40 anos de carreira — contra mais de 350 gravados com outros compositores. A demora, ele conta, se deu pela dificuldade de juntar a quantia necessária para fazer um álbum. Lançado em 2020, "Samba Doce" reúne músicas de diferentes fases de sua carreira, incluindo parcerias com Chico, Renato Braz e o grupo Boca Livre. O álbum se ambienta no samba-jazz, gênero em voga no Brasil dos anos 1960, quando conjuntos como Zimbo Trio e Milton Banana Trio embalaram o ímpeto de modernização do país.
Filho de um funcionário público e uma professora de bordado, Helder descobriu a música graças à tia paterna, dona de uma escola de música. Aos nove anos, já tocava violão e, logo depois, passou ao bandolim. O encontro com o baixo ocorreu na adolescência, meio por acaso: como todos os meninos do colégio queriam tocar guitarra, o baixo elétrico sobrou para o garoto franzino.
Entre os medalhões da MPB, ele coleciona apelidos. Caetano Veloso o chama de "doce Jorge" e Chico, de "são Jorge". Caetano o considera "um dos pontos altos da nossa música popular". Os trabalhos com Maria Bethânia começaram no início dos anos 1990; em 2015, Helder se tornou diretor musical da cantora, tendo produzido o álbum "Noturno". "Ela confia em mim, mas não fujo da exigência dela", admite. "Tudo o que ela me pede eu tento fazer."
A apresentação de sexta-feira no Manouche contará com a participação dos músicos Marcelo Martins, Paulo Calazans, Jurim Moreira e Armando Marçal. O formato de encontro e improviso, que caracteriza o projeto "Tudo é Som!", promete uma abordagem menos convencional do repertório de Chico e Djavan, com ênfase na exploração instrumental e nas possibilidades do jazz brasileiro — gênero que, historicamente, sempre dialogou com a música popular brasileira de forma orgânica.
SERVIÇO
TUDO É SOM — JORGE HELDER
Manouche (Rua Jardim Botânico, 983)
10/7, às 20h30
Ingressos: R$ 200 e R$ 100 (meia e ingresso solidário, — com doação de 1 quilo de alimento não perecível ou livro, que será repassado a comunidades carentes)