Ellen tem o groove

Ellen Oléria lança álbum digno da melhor tradição da black music

Por Affonso Nunes

Ellen Olério faz jus à tradição da música preta em 'Canto de Casa Vol, 1'

"Eu comando o groove", avisa Ellen Oléria em "Axé de Ouro", faixa que abre o excelente álbum "Canto de Casa Vol. 1". É o cartão de visitas de um álbum elegante que faz jus à tradição da black music. É na sfisticação do R&B, no groove do soul, na modernidade do afrobeat e na batida marcada do funk que a voz marcante da cantora entrega densidade e ritmo. Aos 25 anos de carreira, Ellen finca os pés num território que sempre foi seu: o das sonoridades negras.

Produzido por Ellen e um time composto por Felipe Viegas, Pedro Miranda e Renato Galv Santos, o disco tem uma proposta estética evidenciada na frase que abre este texto. Ellen comanda o groove e este comando o trabalho como um todo. Gravado em São Paulo no estúdio Gargolândia, o projeto traz 10 faixas de puro suingue, de música preta correndo nas veias.

Para a artista, este é um disco que celebra a música feita a partir de afetos e pertencimento, que exige do ouvinte uma escuta atenta e aberta. Até ua capa, com uma foto da artista quando criança, compõe essa atmosfera.

Para marcar os 25 anos de estrada na música, a artista que criou um disco que fala da canção que nasce no cotidiano.

"Incendiou" mistura R&B, funk e hip hop em ritmo que pulsa — é faixa que convida ao movimento desde os primeiros segundos. "A Saudade Se Instaurou" navega entre neo soul e MPB com lirismo que não cai em sentimentalismo fácil; é saudade que groova, que dança. "Pinga Tinta" une afrobeat e carimbó, expandindo o mapa sonoro do projeto para territórios que dialogam com ancestralidade e contemporaneidade simultaneamente. "Abya Yala" revolve memórias da ancestralidade africana na canção. Cada faixa é construída com atenção ao detalhe rítmico — o groove não é acessório, é estrutura.

A assinatura artística de Ellen Oléria é potente. Seu timbre amplo e elegante — aquele que a levou a vencer The Voice Brasil — passeia por diferentes registros sem perder densidade. Suas composições atravessa gêneros com fluidez, uma escrita que fala de saudade, pertencimento, marcas deixadas pelos encontros.

O álbum conta com participações de Rincon Sapiência, rapper paulistano que traz sua própria densidade lírica ao projeto em "Te Faria", e de Jef Rodriguez, da Banda O Quadro. A presença de Sapiência, em particular, reforça o compromisso do projeto com a black music brasileira contemporânea — aquela que se ergue do hip hop, do funk, dos sons da periferia, e que não pede permissão para ocupar espaço.

"Canto de Casa Vol. 1" marca um novo ciclo. Após "Afrofuturista" (2022) e "Peça" (2009), Ellen mostra que a música preta brasileira é gesto político, história, corpo e memória. Ellen Olério sabe disso e por isso é uma artista que fala por si, por sua gente e por uma geração artística que se impõe na nossa cena musical.