Oitentou na telinha com Alceu Valença
Canal Brasil exibe dois documentários sobre o cantor e compositor pernambucano nesta quarta, dia de seu aniversário de 80 anos
Affonso Nunes
No dia em que completa 80 anos, Alceu Valença ganha uma sessão dupla na televisão. O Canal Brasil preparou uma programação especial para esta quarta-feira (1º), com a exibição do documentário "Alceu Valença - Na Embolada do Tempo" (2019), seguido do concerto "Valencianas" (2014), no qual o artista é acompanhado pela Orquestra Ouro Preto num encontro memorável. A maratona começa às 14h e ocupa a tarde do canal.
Nascido em São Bento do Una, no agreste pernambucano, Alceu Paiva Valença completa oito décadas em 2026 com uma trajetória que poucos artistas brasileiros podem ostentar. São mais de cinco milhões de discos vendidos e quase 55 anos de carreira — número que impressiona ainda mais quando se lembra que ele quase não foi músico. Formado em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco, chegou a trabalhar como correspondente do Jornal do Brasil antes de abandonar de vez a toga e a redação, em 1969, para se dedicar à música.
Aposta que, felizmente, deu certo (e muito!). Nos anos 1970, Alceu foi um dos pioneiros a fundir a guitarra elétrica com os ritmos nordestinos — baião, frevo, maracatu, forró. Soube modernizar a sonoridade da região sem abrir mão de suas raízes. Produziu clássicos de nossa canção popular como "Anunciação", "La Belle de Jour", "Tropicana", "Girassol" e "Sino de Ouro".
"Valencianas" (2014) prova a capacidade de Alceu em dialogar sua obra com estilos mais formais como a música de concerto. Gravado no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, o show celebrava os 40 anos de carreira do artista. São 14 faixas em que Alceu é acompanhado pela Orquestra Ouro Preto, sob regência do maestro Rodrigo Toffolo e arranjos do violinista Mateus Freire. A formação mescla guitarra, baixo, bateria, sanfona, marimbau e rabeca às cordas da orquestra mineira — ao agreste visitou o universo erudito com graça e rara beleza.
Dirigido por Paola Vieira, "Na Embolada do Tempo" percorre mais de 45 anos de carreira com depoimentos, imagens de arquivo e registros de uma turnê realizada em 2018. O longa-metragem dedica atenção especial ao início dos anos 1970, quando Alceu despontou num cenário musical que ainda tinha resistência à música nordestina nos grandes centros, e à parceria com Elba Ramalho, Zé Ramalho e Geraldo Azevedo no projeto "O Grande Encontro", que lotou teatros pelo país nos anos 1990.
Alceu fez de sua obra uma ponte vibrante entre a tradição dos repentistas, aboiadores e poetas do agreste que ouvia na infância em Pernambuco com a tradição da música popular brasileira. Seu avô organizava saraus que despertaram nele o gosto pela palavra e pelo canto. Aos cinco anos, já havia participado de um concurso infantil no Cine Teatro Rex, cantando frevo de Capiba — um prenúncio do que viria. Não é exagero afirmar que Alceu é influência marcante na geração de Chico Science & Nação Zumbi e Mundo Livre S/A, expoentes do movimento Manguebeat.
Além da exibição dos dois docementátio, Alceu está em turnê pelo Brasil com o espetáculo "80 Girassóis", que passa por dez capitais ao longo de 2026 celebrando as oito décadas de vida e as mais de cinco de música. O nome da turnê ecoa um de seus maiores sucessos — e também a imagem que melhor define o pernambucano: um artista que insiste em olhar para o sol sem perder o chão.