Canções que desaguam no mar do samba baiano
Compositora, escritora e pesquisadora Ana Flauzino faz sua estreia como cantora em 'Rabiscos para o Mar'
Ah, o mar! Cantando como quem conversa, a compositora, escritora e pesquisadora Ana Flauzina dá voz às suas canções em "Rabiscos para o Mar", seu primeiro álbum, já disponível nas plataformas digitais via Trattore. São 13 faixas autorais que mergulham na tradição do samba baiano, com as benção de Iemanjá. A produção capricha nos detalhes — os arranjos de percussão, os sopros, os coros - neste encontro de vontades.
Aqui rabiscos viram canção, canções que encontram o mar — e o mar tanto é o oceano da orixá quanto a imensidão de referências que a cantora e compositora evoca, sobretudo o samba baiano que a artista domina com naturalidade.
Para quem não é de terreiro, vale explicar. A cadência do samba baiano não é a mesma do samba de roda do Recôncavo, embora converse com ele. É um gingado rítmico que nasce da mistura do samba de roda com influências dos blocos afro, do ijexá e do samba-reggae — gêneros que explodiram em Salvador a partir dos anos 1970 com grupos como Ilê Aiyê, Olodum e Muzenza. Seu andamento cadenciado é menos acelerado que o samba carioca, com uma levada de percussão que valoriza os timbres graves e uma pulsação que parece dançar no contratempo. É samba que se canta com o corpo inteiro, que carrega a marca da cultura negra baiana em cada virada de tambor.
As composições remetem aos diferentes sotaques do samba brasileiro, mas é na pegada baiana que o disco encontra seu centro de gravidade. A direção musical de Marília Sodré (violão) e Tiago Nunes (percussão) sublinha essa identidade com arranjos que ora soam encontros domingueiros cheios de amora para dar ora evocam a energia de um bloco afro pelas ruas de Salvador.
O repertório é generoso com a capital baiana. As 13 faixas são crônicas do cotidiano da cidade, pelas feiras, pelas ladeiras, pelos encontros. A poesia de Ana Flauzina traz oralidade, aquela conversa citada no início do texto. Tanto Iemanjá quanto os orixás que regem o universo afrobrasileiro são celebrados como personagens soteropolitanos, uma presença orgânica.
Há ainda um gesto político no trabalho. Com "Rabiscos para o Mar", Ana Flauzina abre a varanda à beira-mar para duetos com artistas com quem mantém afinidade como Mylane Mutti ("Rebento"), Gab Ferruz ("Erê Sagrado"), Cris Pereira ("Rabiscos para o mar"), Deyse Ramos ("Liberdade"), Márcia Short ("Delirante"), Janja Araújo ("Só vence quem sabe amar") e Aloísio Menezes ("Dentro dos seus carnavais")."Rabiscos para o Mar" pede escuta atenta, contemplativa, com as janelas e portas da percepção escancaradas. Para uma estreia fonográfica, o álbum chefga com sabor de fruta madura. Não é o disco de uma cantora descobrindo sua voz, mas de uma compositora que decidiu usá-la para contar as histórias que já escrevia na melhor definição de cantautora. Outros rabiscos são bem vindos.