Ousadia sonora é com o Som Imaginário
Com formação renovada, grupo que criou uma linguagem brasileira para o rock progressivo se apresenta neste sábado no Blue Note Rio
Affonso Nunes
Referência da música instrumental brasileira nos anos 1970, Som Imaginário se apresenta neste sábado (20) no Blue Note Rio, em Copacabana. A procura foi tanta que a casa oferecerá duas sessões: às 20h e às 22h30.
A história começa em 1969, quando o tecladista Wagner Tiso, Frederyko (guitarra) e Zé Rodrix (teclados e voz) — todos ligados ao Clube da Esquina, o coletivo criativo que orbitava em torno de Milton Nascimento em Belo Horizonte — decidiram formar um grupo de acompanhamento. Como o Clube da Esquina era o carro-chefe da gravadora Odeon, seus executivos diziam que os mineiros poderiam gravar qualquer coisa que quisessem.
Foi a senha para Wagner Tiso agrupar a banda num projeto solo que receberia o reforço de uma cozinha de peso formada por Robertinho Silva (bateria) e Luiz Alves (contrabaixo). O resultado foi um disco que misturava rock progressivo, jazz, psicodelia e música brasileira de forma que nenhuma banda havia tentado antes no país.
Sonoridade selvagem
Aquele Som Imaginário de 1970 era selvagem. O álbum homônimo de estreia é uma mescla de influências e sonoridades que passavam pela psicodelia hippie, rock progressivo, futurismo, alguns ecos de latinidade e atmosfera delirante, um som imaginário (literalmente) com DNA próprio: complexo e libertário.
O disco abria com "Morse", uma composição de Wagner Tiso, Tavito e Zé Rodrix que durava quase quatro minutos de teclados sintetizados e guitarra distorcida. A faixa enérgica é marcante por sua percussão bem trabalhada e pelos riffs que evocam o pedido de socorro do código Morse. Certamente, um recado cifrado num Brasil ainda sob o peso da censura imposta pela ditadura militar.
Nos anos seguintes, a banda gravou mais dois álbuns: "Som Imaginário" (1971) e "Matança do Porco" (1973), este último considerado um pico de criatividade, com estruturas complexas e improvisações que beiravam o descontrole.
Robertinho Silva permaneceu na banda até 1974. Luiz Alves seguiu até o final, em 1976. Wagner Tiso continuou como maestro e compositor. Zé Rodrix saiu após o primeiro álbum. Frederyko e Tavito completavam a formação em diferentes períodos. Depois disso, o Som Imaginário desapareceu por décadas — até 2012, quando começou a fazer apresentações esporádicas com alguns músicos convidados.
Agora, em 2026, a banda retorna com uma formação que mistura história e presente. Wagner Tiso é o fio condutor. Robertinho Silva, que trabalhou com Milton Nascimento desde 1969 e se tornou um dos bateristas mais procurados do Brasil, volta ao instrumento que tocava naquele Som Imaginário original. Luiz Alves, que se consolidou como referência do contrabaixo brasileiro, sustenta a base. E Nivaldo Ornellas, saxofonista e flautista que trabalhou com nomes como Gilberto Gil e Tom Jobim, adiciona novos ares (literalmente falando).
O repertório vai percorrer as composições marcantes daquele período — "Morse", "Super-God", um aceno à latinidade em crítica ao medelo fordista de produção; "Tema dos Deuses", da Da trilha do filme Os Deuses e os Mortos, de Ruy Guerra — mas também deixa espaço para improvisação, que sempre foi a marca registrada do grupo. O Som Imaginário foi um dos poucos grupos brasileiros que conseguiu fazer rock progressivo sem soar como cópia de banda europeia. Eles tinham raízes no samba, na bossa nova, na música clássica. Tocavam com a liberdade num país censurado. Complexos e libertários, faziam de sua música um legítimo ato de resistência.
SERVIÇO
WAGNER TISO E SOM IMAGINÁRIO
Blue Note Rio (Av. Atlântica, 1910 - Copacabana)
20/6, às 20h e 22h30
Ingressos a partir de R$ 60