Lenine traz ao Rio espetáculo da turnê de 'Eita': vínculo visceral com o Nordeste
O cantor e compositor Lenine apresenta, no palco do Vivo Rio, as 11 faixas inéditas de um trabalho que reafirma os vínculos do artista com sua terra natal, Pernambuco, e com o Nordeste como um todo.
Affonso Nunes
E dez anos se passaram desde que Lenine entrou em um estúdio para gravar um disco inédito. O retorno acontece agora com "Eita", nono álbum de estúdio do artista pernambucano, lançado em novembro de 2025 e acompanhado de um audiovisual em média-metragem no YouTube. O projeto marca uma fase em que o artista assume o controle total do processo criativo, da concepção à finalização, reafirmando seu vínculo visceral com o Nordeste.
Expressão popular que transita entre o espanto, o encanto e a celebração, "Eita" sintetiza o espírito de uma obra que o próprio Lenine define como seu trabalho mais pessoal. "Empoderei-me de todos os meios, todos os caminhos, todas as etapas", pontua o artista, que assina direção artística ao lado da produção musical do filho Bruno Giorgi. Essa autonomia criativa se reflete em cada faixa e nas demais etapas da produção, dos arranjos à concepção visual, passando pela direção do audiovisual realizada em parceria com Kabé Pinheiro e Laís Branco.
As onze faixas inéditas de "Eita" remetem à sonoridade única de Lenine, algo que conhecemos desde o seminal "Olho de Peixe" (1993), quando a canção "Leão do Norte" (parceria com Paulo César Pinheiro) catapultou sua carreira. Desde então Lenine imprimiu à MPB uma assinatura sonora só sua, construída sobre um violão polifônico capaz de entregar elementos harmônicos, melódicos, contrapontos e percussivos, o diálogo permanente com a poesia concreta e a incorporação de recursos tecnológicos. O álbum pensa o Brasil em suas diversas camadas.
Na faixa de abertura, "Confia em Mim" (Lenine e Dudu Falcão), canta que "o sonho é o mar mais perigoso para quem não quis acordar". Na faixa-título avisa que "O fato é que afeto é a receita / que pode transformar nossa conduta". E "eita", a palavra de ordem é entoada por alguns nordestinos ilustres como a maranhense Alcione, o alagoano Djavan, a baiana Ivete Sangalo e o pernambucano Luis Inácio Lula da Silva.
Lenine aprecia parcerias e gosta de se cercar de jovens compositores. Aqui nomes como Carlos Posada e Gabriel Ventura lhe entregam letras que dividem espaço com parceiros mais frequentes em sua discografia como Arnaldo Antunes, Dudu Falcão, o filho João Cavalcanti, Lula Queiroga e Siba. Maria Bethânia leva brilho e delicadeza à "Foto de Família" (Lenine e João Cavalcanti), onde se ouve que "no dilúvio bem-vindo da humanidade / o amor é uma espécie de vacina". Maria Gadú faz duo com Lenine em "O Rumo do Fogo" (parceria com Lula Queiroga), um maracatu arretado. O conterrâneo Siba está em "Malassombro" (Lenine e Siba), Gabriel Ventura em "Beira" (Lenine e Gabriel Ventura) e o Terreiro Xambá, com a família Bongar, traz seus toques, loas e danças para a faixa "Boi Xambá".
O audiovisual que acompanha o álbum conduz o espectador por uma experiência sensorial que atravessa Recife, Rio de Janeiro e São Paulo, misturando paisagens reais e imaginadas numa organização de imagens que se relaciona diretamente com as letras do álbum. A dimensão visual do projeto ganha corpo desde a capa, assinada pela artista pernambucana Luiza Morgado. Concebida em linogravura e fotografada por Flora Pimentel, a obra traduz o universo afetivo do disco. "Fui criando um banco de imagens mentais. Aos poucos, percebi que o fio que unia tudo era o afeto. O álbum é uma casa, muito nordestino, muito pernambucano, mas também muito íntimo", conta Luiza.
A produção musical de "Eita" contou com arranjos de Carlos Malta, Henrique Albino e Martin Fondse, além de participações instrumentais que vão de Mestrinho na sanfona a Marcos Suzano nos pandeiros, passando por Alberto Continentino no contrabaixo acústico. O álbum se fecha com "Motivo", parceria com Carlos Posada, que funciona como uma declaração de princípios: "por A B / a pessoa sem palavra / pode estar cheia de prata / que não vale um tostão".
Neste sábado, Lenine leva a turnê "EITA" ao Vivo Rio, com apresentação a partir das 21h. No palco, estará acompanhado por Pantico Rocha na bateria, Bruno Giorgi no baixo, Gabriel Ventura na guitarra, Henrique Albino nos sopros e Negadeza na percussão. O repertório inclui as 11 faixas do novo audiovisual além de sucessos que marcaram sua trajetória de três décadas.
SERVIÇO
LENINE — EITA
Vivo Rio (Av. Infante Dom Henrique, 85, Parque do Flamengo) | 20/6, às 21h
Ingressos a partir de R$ 160 e R$ 80 (meia)