A ardilosa mentira em cena
'Iago' revisita o célebre vilão shakespeariano com bonecos e reflexão sobre o presente
Após sete anos circulando por festivais, teatros e projetos em diferentes cidades do país, o monólogo "Iago" retorna ao Rio de Janeiro em temporada que se encerrra neste domingo (21) no Teatro Futuros - Arte e Tecnologia, no Flamengo. O espetáculo, inspirado em "Otelo" de William Shakespeare, coloca em cena Marcio Nascimento, ator indicado ao Prêmio Shell de Melhor Ator em 2019 pela mesma produção.
Sozinho no palco, ele interpreta Iago e simultaneamente dá corpo e voz aos demais personagens da tragédia por meio de bonecos e formas animadas. O recurso cênico transforma em imagem concreta o núcleo dramático da peça: o exercício de manipulação psicológica que Iago exerce sobre todos ao seu redor. A direção é assinada por Miwa Yanagizawa — vencedora dos prêmios Shell e APTR de Melhor Direção por "Nastácia" — e pelo próprio Marcio Nascimento. O texto é de Geraldo Carneiro, e a música executada ao vivo pelo violoncelista Marcio Malard.
A história acompanha a explosão do ódio do personagem após ser preterido por Otelo na promoção ao posto de tenente, cargo entregue ao jovem Cássio. Humilhado e consumido pelo ressentimento, Iago arquiteta um plano para destruir o general mouro, levando-o a acreditar que sua esposa, Desdêmona, mantém um caso amoroso com Cássio. A partir daí, instala-se uma cadeia de mentiras, ciúmes e jogos de poder que conduz os personagens à tragédia.
Na adaptação de Geraldo Carneiro, Iago assume a palavra e revisita os acontecimentos sob seu próprio ponto de vista, compartilhando com o público suas estratégias de conspiração, sua cobiça e sua natureza corrupta, ao mesmo tempo em que revela as fragilidades humanas que alimentam sua vingança. Em vez de apenas vilão, surge também como um observador ácido da alma humana.
O espetáculo nasceu do desejo de Marcio Nascimento de investigar Shakespeare a partir do teatro de animação, linguagem na qual construiu sua trajetória artística. Integrante da companhia PeQuod - Teatro de Animação desde sua fundação, o ator já manipulou mais de 50 bonecos em espetáculos apresentados no Brasil e no exterior, passando por cidades de Portugal, Espanha e China. Em "Iago", ele une a experiência acumulada no teatro de formas animadas à dimensão psicológica da tragédia clássica.
"O espetáculo fala sobre mecanismos que ainda operam no presente: manipulação psicológica, controle emocional e destruição provocada pela mentira. Vivemos tempos de desinformação, fake news e conflitos de narrativa, e Shakespeare segue provocando reflexões sobre aquilo em que escolhemos acreditar". O ator também destaca a dimensão de gênero e violência. "A peça lança luz sobre a violência contra a mulher e o feminicídio. Montar 'Otelo' hoje é criar um espelho do nosso tempo, revisitando o clássico como uma denúncia sobre intolerância, machismo, racismo e violência emocional".
A encenação aposta numa montagem enxuta, em que atuação, música e manipulação acontecem diante do público. Os bonecos e formas animadas são assinados por Bruno Dante e Carlos Alberto Nunes, que também responde pelo cenário. Desde a estreia em 2019, "Iago" realizou temporadas no Sesc Copacabana e na Sede das Cias, além de participar da FLIP, do Festival Midrash, do Palco Giratório em Porto Alegre, e circulou por unidades do Sesc RJ pelo edital Pulsar.
SERVIÇO
IAGO
Teatro Futuros - Arte e Tecnologia (Rua Dois de Dezembro, 63 - Flamengo)
Até 21/6, de sexta a domingo (19h) | Ingressos: R$ 60, R$ 30 (meia) e R$ 39 (desconto Giro Card)