A gafieira moderna de Rodrigo Lessa e Edu Neves

Com os pés na tradição e olhar para o futuro, Bandolinista e flautista renovam sonoridades do samba e do choro em novo álbum

Por

Affonso Nunes

Em "Pra Que Discutir com Madame" (Haroldo Barbosa e Janet Almeida), João Gilberto imortalizou o ranço e preconceito de nossas elites em relação ao samba. Quem nunca cantarolou "Madame diz que a raça não melhora / Que a vida piora por causa do samba / Madame diz que o samba tem pecado / Que o samba, coitado, devia acabar"? Pois é. Madame nunca teve (e talvez nunca tenha) noção da riqueza melódica que o samba traz. Talvez devesse ouvir os mestres do gênero com mais atenção. Ou talvez devesse se debruçar sobre "Tempo de Samba", novo álbum de Rodrigo Lessa e Edu Neves lançado recentemente pelo selo Biscoito Fino.

Dois dos mais respeitados instrumentistas da cena carioca, Lessa e Neves trazem para o público (e para madame, quem sabe) um trabalho que reafirma a cumplicidade forjada em duas décadas de colaboração e oferece um painel onde choro, jazz, samba e música latina convivem sem hierarquias rígidas. O disco marca um novo capítulo na trajetória da dupla, que já havia conquistado reconhecimento através do grupo Pagode Jazz Sardinha's Club.

Com produção musical e arranjos de Rodrigo Lessa, o álbum pode ser definido como uma suíte de brasilidade urbana. O bandolim de Lessa e os sopros (flauta e sax soprano) de Neves dialogam em precisão convidando o ouvinte a desfolhar várias camadas sonoras em puro estado de reinvenção do samba e do choro, entregando uma espécie de gafieira moderna. Não sabemos, porém, se madame arrastaria o pé na pista de dança (pior pra ela, se não quiser se entregar a este trabalho de excelência).

O repertório é composto integralmente por obras autorais inéditas — com exceção de "No gurufim do Tio Sam", parceria entre os dois. Temas como "Montuno carioca" (Rodrigo) e a malemolente "Maxixe acebolado" (Edu) exemplificam a centrifugação rítmica que caracteriza o trabalho. "Samba Infinito" (Rodrigo) expõe uma escrita que investe na exuberância do discurso e multiplicidade de elementos sem abdicar da melodia. Há espaço também para a homenagem afetiva em "Nelson" (Edu) e para a verve lúdica de "Manual prático para uma boa vadiagem" (Rodrigo), expressão que evoca a malandragem dos antigos mestres da Lapa.

A base harmônica conta com o violão de sete cordas do mestre Carlinhos 7 Cordas e o violão de Luís Louchard, sustentando os voos solistas. A percussão em bloco de Marcus Thadeu, Bruno Barreto e Lucas Videla garante o molho temperado, que sempre cai bem. Todos os músicos envolvidos na gravação esbanjam senso de equilíbrio e consciência coletiva — cada um joga para o conjunto sem abrir mão da identidade de seus instrumentos.

Gravado na histórica Companhia dos Técnicos por William Jr., com complementos no estúdio Umuarama (Ricardo Calafate), o álbum apresenta transparência sonora notável. A mixagem de David Brinkworth é detalhista e garante a escuta de todas as camadas sonoras que os arranjos entregam.

Rodrigo Lessa é bandolinista, compositor, arranjador e produtor com trajetória que remonta aos anos 1980, quando ingressou no Nó em Pingo d'Água, um dos mais respeitados conjuntos de choro do país. Foi fundador da Orquestra de Cordas Brasileiras em 1989 — trabalho que lhe rendeu o Prêmio Sharp de Melhor Grupo Instrumental. Sua discografia solo inclui títulos como "Solbambá" (1997), "Feito à Mão" (2001), "No Bangalô da Bandola" (2004) e "No Jeito" (2021). Colaborou como arranjador e músico com nomes como Paulo Moura, Guinga, Ivan Lins, Paulinho da Viola e Dona Ivone Lara.

Edu Neves é flautista, saxofonista, arranjador e compositor consolidado na cena carioca. Iniciou estudos aos dez anos com mestres como Nicolino Cópia (Copinha) e tornou-se profissional aos 16. Integrou a banda de Zeca Pagodinho e tocou com Maria Bethânia, Guinga, Hermeto Pascoal e Hamilton de Holanda. Sua discografia inclui "Gafieira de Bolso", "Olayá", "Baile do Almeidinha" (com Hamilton de Holanda), "Cosmopolita" (com Rogério Caetano) e "Sambatown" (com Marcos Suzano). Além de performer, dedica-se à educação musical, ministrando cursos de improvisação.

"Tempo de Samba" mostra que o sentimento do samba faz parte da essêncoa da alma brasileira. Não importa a hora, o lugar ou classe social. O brasileiro respira samba, mesmo que madame faça beicinho.