'O exercício do artista é o de uma atenção máxima à criação, ao detalhe'
Apelidado pelos colegas de 'Quincy Jones do teatro brasileiro', Muato coleciona prêmios e reconhecimento da crítica e do público com trilhas que vão além de mero adereço das cenas
Affonso Nunes
Cria de Vila Isabel, bairro que embalou gerações de ícones da música brasileira como Noel Rosa, Martinho da Vila e Carlos Dafé, André Muato é hoje um dos nomes mais relevantes da cena teatral brasileira ao transformar a música em ferramenta de criação dramatúrgica. Formado em música de concerto, o compositor e diretor musical rompeu os limites da formação clássica para mergulhar de cabeça no teatro, onde descobriu o habitat ideal para entrelaçar seus múltiplos talentos: composição, arranjo, percussão corporal, atuação e direção.
A trajetória de Muato é marcada por uma filosofia criativa vira do avesso a ideia de trilhas são mera ornamentação sonora de um espetaculo. "Eu penso que o exercício do artista é o de uma atenção máxima à criação, ao detalhe. Sabe aquele detalhe que pode passar como irrelevante? Pra gente, não pode ser. A gente está trabalhando para criar linguagem, uma linguagem que serve ao que a humanidade não dá conta de tocar de outra forma. É esse entendimento que nos impulsiona a ficar horas tecendo um único som", disse ao Correio da Manhã em dezembro de 2024.
Essa obsessão pelo detalhe e pela construção de sentido através do som é o que diferencia seu trabalho e o coloca numa categoria à parte: "Quincy Jones do teatro brasileiro", costumam dizer colegas de cena.
Se é para ser como o renomado músico e produtor estadunidense, que se fale de prêmios. E o reconhecimento veio. Em 2024, Muato conquistou o Prêmio Shell de Teatro pela direção musical, percussão corporal e trilha original de "Pelada - A Hora da Gaymada", trabalho desenvolvido com o Complexo Negra Palavra, grupo que integra desde 2019. A peça, que cruza a tradicional pelada heterossexual com a "gaymada" (adaptação do jogo de queimado pela população LGBTQIAPN periférica), retrata os bastidores da disputa de dois times pelo Campo do Furão, em Olaria, antes que uma empreiteira o compre.
No mesmo ano, recebeu o Prêmio FITA na categoria música por "O Admirável Sertão de Zé Ramalho", em parceria com Plínio Profeta, onde atuou no palco interpretando um jovem Zé Ramalho e assinou a direção musical.
Agora, em 2026, Muato amplia sua galeria de prêmios com o segundo Prêmio Shell, desta vez na categoria música, pelas composições e direção musical de "Vinte!", e o Prêmio APCA na categoria Programa/Memória/Projeto/Difusão, por "Minas de Ouro - Experiência nº 2 - Performance Monumento", de Carmen Luz, onde assinou a música original e trilha sonora. Ainda em 2026, conquistou prêmio de melhor ator no filme "Realize seu Sonho Agora", de Diogo Brandão.
A parceria com Carmen Luz, diretora e artista multidisciplinar com foco nas culturas negras, representa um dos eixos mais frutíferos de sua carreira. Juntos, fundaram a Orquestra de Pretxs Novxs em 2019, que estreou com "Reza", adaptação do livro "Reza de Mãe" de Allan da Rosa. Naquele trabalho, Muato assinou as composições, arranjos e direção musical, além de atuar em cena. A linguagem desenvolvida naquela experiência - marcada pela percussão corporal e arranjos vocais com sonoridades não convencionais - tornou-se marca registrada de seus trabalhos posteriores.
Renato Farias, roteirista e diretor que colabora com Muato há anos, destaca a capacidade do compositor de transformar poesia em musicalidade. "O maior desafio e creio que, também, a grande força desse trabalho, veio da percepção de que as poesias de Solano são profundamente atuais", afirmou Farias sobre "Negra Palavra - Solano Trindade", espetáculo que roteirizou usando exclusivamente poemas do poeta negro. "Muato, diretor musical, acrescentou a musicalidade através da percussão corporal, linguagem que vem sendo desenvolvida pelo Complexo desde então", complementa, reconhecendo como o compositor elevou o material dramatúrgico através de suas escolhas sonoras.
A superprodução "Ray — Você Não Me Conhece", que homenageia Ray Charles e retorna em janeiro de 2026 para temporada em São Paulo, reforça a sofisticação das abordagens que Muato leva aos espetáculos com os qua se envolve. Assinando composições e dividindo direção musical com Claudia Elizeu, Muato concebe a música como elemento multifuncional. "A voz, cantada ou falada, o caminhar pelo palco, o som dos instrumentos musicais, as palmas, a respiração, todas as sonoridades são, na perspectiva do espetáculo, música", explica. "A música é cenário quando provoca a imaginação e/ou induz a memória a sentir lugares, ambiências, atmosferas. É também dramaturgia quando operisticamente conta a história por meio das canções de Ray Charles ou por meio de composições originais que se harmonizam e se fundem com o texto para potencializar o sentir das palavras", disse Muato, na ocasião da estreia do espetáculo.
Sua presença em espetáculos sobre grandes nomes da música brasileira e internacional consolidou uma marca em sua trajetória. Além de "Ray", trabalhou em "Djavanear - Um Tanto Flor, Um Tanto Mar" (com direção musical ao lado de Alfredo Del-Penho) e "Chega de Saudade!", onde faz direção musical com Felipe Storino e encena, retomando ficcionalmente personagens, biografias e memórias da Bossa Nova no Rio de Janeiro dos anos 1950 e 1960 em versão com elenco exclusivamente negro. "O espetáculo teve um processo em que muito foi construído pela força do elenco. As ideias musicais foram surgindo nos ensaios e nós tínhamos o desafio de apresentar um certo ar de Bossa Nova, mas visando romper os padrões do gênero musical. A intenção era fazer uso dessa estética para manifestar uma ideia política", detalha Mauato.
Sua atuação também se estende a trilhas de documentários e filmes, como "Rio Negro" e "O Pequeno Herói Preto". Em 2019, conquistou sete estatuetas no Awards Deutscher Rock & Pop Preis, na Alemanha, consolidando sua presença internacional. Como cantor e compositor, criou o projeto "AfroLove Songs ou A Canção Urbana de Amor Política", série musical e poética sobre o amor vivido por pessoas negras, que se desdobrou no festival "Afrolove" e nas "Muato Sessions", shows itinerantes com diversos artistas.
Sobre os prêmios, Muato fica os pés no chão. "Está sendo incrível ganhar tantos prêmios! É um reconhecimento que a gente precisa para estar nesse mundo. Só é importante não perder a conexão com o outro mundo, não deixar isso ser condutor, mas aceitar e curtir cada prêmio como consequência", comemora com lucidez.
Novos projetos já estão em desenvolvimento. Muato assina direção musical e composições originais em "Os Irmãos Timótheo da Costa", que retrata a vida dos pintores João (1879-1932) e Arthur (1882-1922) Timótheo da Costa, com direção geral de Luiz Antonio Pilar e dramaturgia de Claudia Valli. Em "Nó", peça de Gildon Oliveira sobre amor e luto na perspectiva de um casal negro de meia-idade, faz direção musical. "O Começo do Fim", estrelado por Isabel Fillardis e Well Aguiar, traz sua trilha sonora em diálogo com direção de Rubens Camelo, supervisão de Amir Haddad e texto de Denise Crispun. Também trabalha no infantil "Solaninho, Uma Viagem com o Poeta do Povo", responsável pela direção musical e percussão corporal, que narra os primeiros passos de Solano Trindade, pioneiro da Literatura Negra no Brasil.
Entre os dias 29 de junho e 12 de julho, Muato representará o Brasil em Luanda, Angola. Estará com o Complexo Negra Palavra para apresentar "Poesia do Samba - Solano Trindade" através do edital de mobilidade internacional da Funarte. Levará também seu show "DERÊ - Concerto sobre o Pagode" e participará do festival FESTECA em Cazenga.