Tesouros pianísticos
Segundo álbum de Julie Wein reúne composições de clássicos da MPB com o piano como protagonista e inclui participações de Francis Hime e Ivan Lins
Affonso Nunes
EApesar de ser um instrumento geralmente associado à música de concerto, o piano tem uma história marcante na canção popular brasileira — uma tradição que sempre se renova como no álbum "Pianos e Canções", segundo álbum de Julie Wein, cantora, compositora, atriz, pianista e doutora em Neurociências pela UFRJ. A artista adentra nessa rica memória musical ao selecionar um repertório que reúne composições de mestres como Johnny Alf, Tom Jobim, Ivan Lins e Benito di Paula.
O Rio de Janeiro chegou a ser apelidado de "Pianópolis" em outras épocas, quando o instrumento era elemento fundamental nas composições de seus maiores artistas. "Este disco nasce do desejo de celebrar a tradição do piano popular brasileiro, através de artistas que tiveram o instrumento como elemento essencial de suas obras", afirma Julie. A seleção do repertório. portanto, é um "mergulho na memória afetiva e um resgate da pluralidade que fundamenta a nossa identidade musical".
O álbum reúne "Retalhos de Cetim" (Benito di Paula), "Rapaz de bem" (Johnny Alf), "Olha Maria" (Tom Jobim, Vinícius de Moraes e Chico Buarque) e "Balada do Louco" (Arnaldo Batista e Rita Lee). Dois dos compositores homenageados dividem os vocais com Wein: Francis Hime em "Trocando em Miúdos" (parceria de Hime com Chico Buarque de 1977), e Ivan Lins em "Bilhete" (Ivan Lins e Vitor Martins).
Gravar com os dois teve um signicado especial para Julie. "Eles fazem parte da minha formação musical desde muito cedo. São compositores que me ensinaram diferentes formas de pensar o piano dentro da canção brasileira", pontua.
O álbum inclui ainda a faixa autoral "Homem Virtuoso", composta por Wein e Matheus Prevot. A canção traz, do ponto de vista feminino, o arquétipo do homem virtuoso, mostrando o protagonista em situações de poder, vaidade e contradição. "Agora, é a mulher quem canta e ironiza o homem que tenta manter seu trono moral. A obra propõe reflexão, mas sem perder a leveza, o humor e a potência poética", destaca a compositora, que já participou de espetáculos musicais como atriz e cantora.
Com direção e produção musical de Jorge Helder (também no baixo), "Pianos e Canções" é mais um capítulo da história de Julie com a gravadora Biscoito Fino, que também lançou seu ótimo álbum de estreia, "Infinitos Encontros", em 2020.
Empolgada com o resultado deste "Pianos e Canções", Julie Wein planeja produzir novos volumes, gravando compositores como João Donato, Marcos Valle, Guilherme Arantes, Eduardo Dusek, Flávio Venturini, Arrigo Barnabé, Tania Maria e Angela Ro Ro. A julgar pelo que ela consegue entregar neste álbum, a promessa precisa virar obrigação.