Fafá de Belém: 'Há 50 anos eu falo da Amazônia'

Cantora reúne artistas de sua região para celebrar 50 anos de uma carreira de grande sucesso

Por Affonso Nunes

Nem mesmo o sucesso no Brasil e no exterior afastou Fafá de suas origens amazônicas

Fafá de Belém nunca saiu de Belém — mesmo quando saiu. A mais célebre das cantoras paraenses comemora 50 anos de carreira, uma trajetória que, vista de perto, revela-se um permanente diálogo da com suas raízes amazônicas. Sua apresentação nesta sexta-feira (5) no Circo Voador mostra que essa ligação está cada vez mais sólida, cada vez mais consciente. "Há 50 anos eu falo de Amazônia, de Belém, de Norte, do Pará, de cultura, de floresta", pontua artista.

Nascida Maria de Fátima Palha de Figueiredo na capital paraense, Fafá construiu uma carreira sólida, mas o sucesso nunca ofuscou seu olhar regional. Carismática, dona de um senso de humor única e da gargalhada mais gostosa do Brasil, ela ganhou projeção nacional em 1975, quando "Filho da Bahia" integrou a trilha sonora de "Gabriela", uma das novelas mais conhecidas no Brasil e no exterior. Desde então, sua voz ecoou nas televisões, rádios e palcos — mais de 50 canções suas foram inseridas como temas de novelas e especiais de TV.

Gravou mais de 30 álbuns, ultrapassando a marca de 15 milhões de discos vendidos. Conquistou prêmios de melhor cantora, virou celebridade em Portugal — onde também possui cidadania — e se tornou embaixadora da Unicef na região amazônica.

Mas o que distingue Fafá não é apenas o alcance de sua carreira. É a forma como, ao longo de cinco décadas, ela manteve viva a conversa com suas origens. O espetáculo "Fafá de Belém: O Musical", recém-encenado no Rio, materializa essa verdade. O musical produzido por Jô Santana tece a história pessoal de Fafá com a história política e cultural do Brasil, passando pela Amazônia, pelo Círio de Nazaré e pelos valores identitários que definem sua obra.

José de Holanda/Divulgação - Mestre da guitarrada, Manuel Cordeiro leva os ritmos amazônicos ao show da amiga Fafá

No show do Circo Voador, essa conexão ganha corpo novamente. A apresentação é trabalhada na guitarrada paraense, com participação do mestre Manoel Cordeiro — um dos grandes nomes da música amazônica. Fafá mistura sucessos como "Nuvem de Lágrimas" e "Coração do Agreste" com faixas do disco "Do Tamanho Certo para o Meu Sorriso", lançado recentemente. O repertório inclui ainda versões de outros artistas que reforçam as raízes paraenses: "Asfalto Amarelo" (Manoel Cordeiro/Felipe Cordeiro/Zeca Baleiro), "Volta" (Johnny Hooker) e "Pedra Sem Valor" (Dona Onete). Cada escolha é um fio que a reconecta ao Pará, ao carimbó, à floresta, às águas que moldaram sua sensibilidade artística. Tudo tão regional, tudo tão brasileiro.

A noite terá show de abertura das Suraras do Tapajós, que fazem sua estreia no Rio. O grupo é o primeiro coletivo de carimbó do Brasil formado exclusivamente por mulheres indígenas. Originárias de Alter do Chão, em Santarém — território do povo Borari — as Suraras se consolidaram como referência da música indígena. O repertório do grupo mescla composições autorais com clássicos da música paraense de mestres como Dona Onete, fortalecendo a cultura regional com letras que exaltam a natureza, a força feminina e a relação profunda de seus povos com as águas e territórios. No palco, utilizam curimbós, maracas de cuia, banjo e violão, com arranjos vocais que seguem a tradição do gênero. A coreografia convida o público para participar em uma grande roda.

Derso Oliveira/Divulgação - Suraras do Tapajós é um grupo de carimbó formado apenas por mulheres

Nos intervalos, o coletivo Vitrola Aberta — formado pelas DJs Bibi Grácio, Tha Redig e Yasmin Lisboa — comanda a pista com uma seleção musical que mantém a energia de uma noite sorridente como Fafá.

SERVIÇO

FAFÁ DE BELÉM - 50 ANOS DE CARREIRA

Circo Voador (Rua dos Arcos, s/nº, Lapa)

5/6, a partir das 20h (abertura dos portões) | Ingressos a partir de R$ 180 e R$ 90 (meia)