Sem a pretensão de melhorar o que já é perfeito
Com as benções de Baden Powell, Vinicius de Moraes e dos orixás, Marcos Sacramento e Zé Paulo Becker apresentam sua reletura d'Os Afro-Sambas', um monumento sonoro da música brasileira
Affonso Nunes
Seis décadas depois de sua criação, "Os Afro-Sambas" — o icônico álbum de Baden Powell e Vinicius de Moraes — ainda reverbera (e muito). Tanto que acaba de ganhar releitura com os talentos do cantor Marcos Sacramento e do violonista Zé Paulo Becker. O show de lançamento do álbum "Afro-Sambas 60 anos - Marcos Sacramento & Zé Paulo Becker" será neste sábado (6), às 20h, no palco do Teatro Rival Petrobras que acaba de lançar pela Biscoito Fino um disco homônimo e apresenta o espetáculo de lançamento neste sábado, 6 de junho, no Teatro Rival Petrobras.
Sacramento e Becker partem da formação essencial que estrutura o original — a força bruta da voz e do violão. O novo álbum revisita as oito canções do disco de 1966 ("Canto de Ossanha", "Berimbau", "Tristeza e Solidão", "Bocochê" e outras) e incorpora quatro composições que orbitam o mesmo universo poético e rítmico: "Berimbau", "Consolação", "Tempo de Amor" e "Labareda".
Para entender a relevância d'"Os Afro-Samnas" precisamos voltar a 1966. Naquele ano, o violonista e o poeta se debruçaram sobre um projeto ambicioso: conectar a canção brasileira às raízes africanas de forma orgânica, sem qualquer traço de folclorismo. E o fizeram trancafiados por dias no apartamento de Vinicius, sem sair de lá. O resultado desses dias de reclusão? Um álbum de 32 minutos que se tornou um marco na história da música brasileira. Gravado em janeiro de 1966 pela gravadora Forma, "Os Afro-Sambas" reuniu composições que evocam a força dos orixás e sonoridades ancestrais da memória afro-brasileira, mas embalados pela sofisticação harmônica de Baden e verve do Poetinha.
A obra não foi um sucesso comercial imediato, mas conquistou respeito duradouro entre músicos, críticos e pesquisadores. Décadas depois, é considerada uma das obras-primas da época dourada da música brasileira, eleita entre os maiores álbuns da história do país. Baden e Vinicius abriram caminhos ao tratar de ancestralidade africana, de espiritualidade e de identidade negra através de um álbum de pura sofisticação.
Nesta releitura, Sacramento e Becker reuniram convidados de peso. Ney Matogrosso faz dueto com sacramento em "Canto de Ossanha"; a faixa mais popular do ábum original; Roberta Sá entra em "Canto de Yemanjá"; Fabiana Cozza em "Tristeza e Solidão". Vozes da nova geração, Juliane Gamboa está em "Bocochê" e Ilessi em "Canto de Xangô".
O virtuoso violão de Yamandu Costa conversa lindamente com o de Zé Paulo Becker em "Tempo de Amor". E o Trio Madeira Brasil participa de "Consolação". O trombone de Silvério é destaque na festiva "Labareda".
No palco do Rival, Sacramento e Becker têm o reforço dos percussionistas Netinho Albuquerque e Leonardo Dias.
O novo trabalho de Sacramento e Becker não tenta o impossível, isto é, melhorar o que já é perfeito. Mas mantém viva uma estética que Baden e Vinicius introduziram na canção popular brasileira
SERVIÇO
MARCOS SACRAMENTO E ZÉ PAULO BECKER - AFRO-SAMBAS 60 ANOS
teatro Rival Petrobras (Rua Álvaro Alvim, 33 - Cinelândia)
6/6, às 20h
Ingressos a partir de R$ 50