Um forasteiro dentro da própria casa

Bezerra da Silva deu voz a poetas anônimos do morro e cantou, como ninguém, a dura realidade das periferias, muito antes do rap

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Fred Soares Especial para o Correio da Manhã

Bezerra da Silva atravessou o Brasil de cima pra baixo. Veio do Recife escondido num navio de açúcar, aos quinze anos, com a roupa do corpo e a fome do mundo. Morou quinze anos num barraco do Cantagalo. Dormiu nas calçadas de Copacabana. Vendeu, depois de tudo, três milhões de discos. E mesmo assim o samba tradicional jamais lhe ofereceu uma cadeira à mesa. Procure um LP de luxo de Paulinho da Viola, de Beth Carvalho,entre outros, com o nome dele numa parceria. Não vai achar. Bezerra foi, em vida, um forasteiro dentro da própria casa.

Toda época fabrica os seus malditos. Nos anos 70, o rótulo coube à turma experimental da MPB — Jards Macalé, Sérgio Sampaio, Luiz Melodia, Jorge Mautner, Tom Zé —, gênios estranhos demais para o rádio FM, recusados pelas gravadoras, mas adorados pela crítica e acolhidos na boemia ilustrada da Zona Sul. Bezerra era um maldito de outra estirpe. Não tinha roda de gênios para chamar de sua, nem o halo de artista cult que os jornais concedem a seus prediletos. A maldição dele era mais velha e mais brutal: a de classe e de origem. Vendeu milhões e seguiu invisível para o mundo letrado: favela demais para a academia, bandido demais para a sala de visitas. Os outros foram postos à margem pelo excesso de vanguarda. Bezerra, pelo simples fato de ser o morro em pessoa, cantando.

Em 23 de fevereiro de 2027, esse forasteiro faria cem anos. E a festa que se arma para o centenário tem cara de acerto de contas. O homem que o samba do asfalto tratou à distância vai receber no carnaval reconhecimento no palco maior da cultura nacional. O cantor e compositor será o tema do enredo de uma das escolas de samba do carnaval carioca, que fará o anúncio oficial nos próximos dias. No esplendor da Avenida, a margem vai virar centro. É o Brasil chegando, com quatro décadas de atraso, à conclusão de que aquele migrante, que veio a se transformar num arauto das favelas cariocas, confirmou o que disse um dia Euclides da Cunha: o nordestino é acima de tudo um forte.

O desfile, porém, será mais um dos tantos momentos em que a memória de Bezerra será recuperada. Em 28 de maio, no Museu do Amanhã, a família lançou o projeto "Bezerra da Silva 100 Anos", uma operação de resgate em muitas frentes. O projeto é tocado pela Bezerra King, empresa da família que guarda os direitos da obra, com a CUFA e a Favela Holding. A direção geral é de Celso Athayde, ao lado dos filhos do cantor, Léo, Ítalo e Ulisses. A frente mais quente, obviamente, é a musical. Sob coordenação de Preto Zezé, Vinicius Athayde e Fábio Almeida, clássicos de Bezerra ganharão releituras e shows itinerantes na voz de gente que, em tese, não caberia no mesmo palco. Zeca Pagodinho, Dudu Nobre e Jorge Aragão, do samba. Marcelo D2, Dexter, Edi Rock, Orochi, MD Chefe e Delacruz, do rap e do trap. Seu Jorge, Ludmilla e o Jota Quest, puxando para o pop. Quem casou essas tribos todas, em vida, foi o próprio Bezerra.

No audiovisual, vem uma série documental dirigida por Celso Athayde e pelo roteirista Rafael Dragaud, sobre a trajetória e o peso cultural do sambista, e um especial de TV pela Favela Filmes. No teatro, a vida do artista vira musical sob direção de Elísio Lopes Jr. Na literatura, dois livros assinados pelos filhos prometem bastidores e memórias de família. E há um capítulo discreto que talvez sobreviva a todos os outros: o Selo Bezerra 100 Anos, criado pela produtora MUVUKA para organizar e preservar o acervo.

No lançamento, em vez de discurso, teve roda de samba. Dudu Nobre, Preto Zezé e os filhos puxaram clássicos. Foi o jeito mais honesto de começar uma festa que é, no fundo, um velório às avessas.

Para boa parte do público de hoje, gente já de barba na cara, o nome diz pouco. Reparem na injustiça e vamos consertá-la. José Bezerra da Silva nasceu em Recife, filho de uma mulher que o marido abandonou ainda na barriga. Aos quinze anos, fugiu da miséria num navio de açúcar e desembarcou num Rio de Janeiro que não o esperava. Foi pintor de parede, servente de obra, mendigo. Tentou morrer e não conseguiu. Alguém lá de cima tinha outros planos para ele.

Tocava percussão desde menino, estudou violão por anos e era um dos raríssimos partideiros que liam partitura, o que lhe valeu até uma cadeira na orquestra da TV Globo entre 1977 e 1985, sob a batuta de Guio de Moraes. O morro, portanto, tinha ali um erudito com calos na mão.

A fama demorou a chegar. Primeiro compacto em 1969, primeiro LP em 1975. A vida só virou com a série "Partido Alto Nota 10", quando Bezerra achou o personagem que era ele mesmo. Vinte e oito discos. Três milhões de cópias. Discos de ouro e de platina na parede do barraco. O apelido que pegou, "embaixador dos morros e favelas", não era jogada de marketing. Era posto diplomático de verdade, conferido pela única nação que o reconhecia.

E aqui falo como quem estuda samba. Bezerra inventou uma cadeira que não existia. O "sambandido" não era o malandro de salão de Wilson Batista nem o poeta de luto de Cartola. Era repórter, cronista. Era um sujeito de pé no meio do tiroteio, anotando nomes, apelidos, sentenças, antes que o rap brasileiro fizesse a mesma coisa de microfone na mão. Quem quiser entender de onde brotou metade da música de periferia que toca hoje terá de passar, obrigatoriamente, por aquele pernambucano de voz malandreada.

Mas o mais bonito acontecia antes do disco. Bezerra não inventava aqueles versos. Ele os caçava. Subia e descia os morros com um gravador de fita na mão, entrando em birosca,

botequim e roda de samba para recolher o samba de compositor que ninguém conhecia. Eram pedreiros, lixeiros, camelôs, feirantes, biscateiros, gente com o dom da rima e nenhuma porta aberta nas gravadoras. Muitos assinavam com codinome, porque a letra era "contraventora" demais para andar com o nome de batismo. E há um detalhe que desmonta a lenda do explorador: Bezerra fazia questão de creditar cada um pelo nome e pagava o direito autoral em dia, num mercado que sempre comeu o pobre pelas beiradas. "Abaixo de Deus, eu devo a eles", disse numa entrevista de 2003. "Se não fossem eles, eu não estaria aqui." Quem quiser ver isso de perto que procure "Onde a Coruja Dorme", documentário de 2012 inteiro dedicado a esse exército invisível de poetas operários. Numa das cenas, ele define o próprio ofício sem falsa modéstia: os autores do morro dizem cantando o que não conseguiam dizer falando, e ele era só o porta-voz.

A indústria grande, essa, sempre olhou para ele de nariz torto. Bezerra vendeu à revelia da maioria das grandes gravadoras, despachando disco por som de favela, porta de loja e rádio AM, e desconfiava em alto e bom som dos relatórios que elas apresentavam. A resposta mais espirituosa a esse desprezo veio em 1995: com Moreira da Silva e Dicró, gravou pela CID "Os Três Malandros In Concert", deboche escancarado aos Três Tenores - Pavarotti, Domingo e Carreras - que naquele momento lotavam estádios mundo afora. Não tinham ópera nem maestro. Tinham o Theatro Municipal nas fotos de capa, paletó de gala e a malandragem. Vendeu, e ainda rendeu a Moreira da Silva, o velho Kid Morengueira de 93 anos, uma última volta na luz: foi o seu derradeiro disco.

Tem um fato que acanha o samba. Um artista do gênero que criou um estilo absolutamente próprio foi reverenciado por quase todo mundo, em vida e na morte, menos pelos seus.

Quem o ressuscitou foi o rock. Em 1996, o Barão Vermelho regravou "Malandragem Dá um Tempo", com Serginho Trombone refazendo nota por nota o naipe de metais de "Low Rider", da banda War, e devolveu a música ao rádio. O Rappa fez o mesmo com "Candidato Caô Caô". Frejat reabriu a faixa no show solo e cravou uma frase que vale para hoje: está faltando humor às pessoas.

O abraço inteiro, porém, veio do rap. Em 2010, Marcelo D2 gravou "Marcelo D2 Canta Bezerra da Silva", até hoje o único tributo de fôlego ao sambista, e fez questão de sublinhar a crítica social das letras. D2 tem uma tese que eu assino embaixo: só se discute hoje, em música, machismo, violência e tráfico, porque caras como Bezerra jogaram esses bichos vivos em cima da mesa primeiro, quando ninguém tinha estômago para olhar.

Releiam a lista de shows do centenário. Samba antigo, rap, trap, funk, pop, todos brigando pelo agora ilustre cantor. É a prova de alcance que biografia nenhuma precisaria escrever. A obra furou a bolha do morro, atravessou o rock dos anos 90, criou raiz no hip-hop e chegou inteira ao streaming no século 21. Só as rodas de samba da Zona Sul, que ele frequentou em vida sem nunca ser de fato aceito, seguem ignorando o seu legado.

Chego à parte que mais me importa:em 2022, uma reportagem do Estadão, de Julio Maria, deu nome ao crime de que Bezerra mais foi vítima: "apagamento". Não o cancelamento de gritarias e hashtags, mas algo mais covarde, porque tinha o objetivo de ignorar deliberadamente a obra. O repertório some das rodas. Não se proíbe Bezerra. Apenas não se canta, não se toca, não se fala. Sambistas ouvidos à época confessaram o medo. Ninguém quer pagar para ver se vai ser cancelado.

Eu entendo de onde vem o incômodo, e não vou bancar o cínico: há letras que machucam o ouvido de 2026. Machucam mesmo. Mas engavetar a obra por causa disso é o tipo de erro que deixa um país mais burro sobre si próprio.

A defesa mais limpa é do historiador Luiz Antonio Simas, na mesma reportagem: "Bezerra era um cronista da sua realidade, não um advogado de bandido, testemunha de um horror que já existia com ou sem o samba dele". A antropóloga Letícia Vianna, que lhe dedicou um livro inteiro, "Bezerra da Silva - Produto do Morro", o trata como sociólogo do próprio tempo e dispara a provocação que encerra a discussão: se for para cancelar Bezerra, cancelem junto Noel Rosa e Wilson Batista, e que se jogue no lixo metade da história do samba brasileiro.

Penso igual, e vou além. Arte se julga pelo tempo que a pariu, não pela régua da geração seguinte, que sempre se acha a mais civilizada de todas (e quase nunca é). "Meu Bom Juiz", samba de Beto Sem Braço e Serginho Meriti, humanizava um traficante de carne e osso - José Carlos dos Reis Encina, o Escadinha, do Morro do Juramento - e pedia ao juiz, pela boca da comunidade, que não baixasse o martelo. É chocante? É. Mas é, antes de chocante, um documento de como aquele mundo se enxergava no instante exato em que o Estado havia desistido dele. E a vida fez questão de provar que ali não havia abstração nenhuma: em setembro de 2004, quando Escadinha foi enterrado, foi ao som de "Meu Bom Juiz" que o morro se despediu dele. Apagar a canção não apaga o que ela viu. Só nos cega.

E há uma ironia histórica que devia fazer corar quem hoje quer calá-lo. Bezerra já foi censurado oficialmente. Nos anos 80, sob o governo Sarney, músicas suas foram proibidas no rádio por "ofensa" a policiais e delegados, conforme os próprios pareceres da censura registraram. Os autores de "Canudo de Ouro", o samba do padre que vendia cocaína na sacristia, foram chamados a dar satisfação ao arcebispo de São Paulo. A mesma obra que o moralismo de batina e farda quis sufocar nos anos 80 corre o risco de ser sufocada quarenta anos depois pelo moralismo de causa nobre. Mudou o algoz, mudou o lado, mudou o uniforme. O instinto de tapar a boca de quem incomoda é, sempre, exatamente o mesmo.

Daí a beleza do centenário, e do desfile que virá na Sapucaí. Não se trata de passar a mão na cabeça de verso nenhum. Trata-se de devolver Bezerra ao posto que ele nunca devia ter perdido: o de homem que encarou a parte do Brasil que o Brasil não quer ver, e a cantou, com graça, humor e sem pedir licença a ninguém. Cem anos depois, o incômodo que ele ainda provoca é a última prova de que estava certo o tempo todo.