Jorge Drexler em tempo de reconexão
Cantor e compositor uruguaio lança, no Circo Voador, o álbum 'Taracá'. Trabalho traz repertório que mistura o candombe uruguaio e o samba brasileiro
Em turnê pelo Brasil, Jorge Drexler apresenta nesta quarta (27) o show de lançamento de "Taracá", seu 16º álbum de estúdio e o primeiro gravado no Uruguai em quase três décadas. O trabalho marca um retorno geográfico e existencial que o próprio artista descreve como "um pedido de permissão da comunidade uruguaia para me reintegrar".
A história por trás do disco começa há dois anos após a morte de seu pai. No mesmo período, completou 60 anos e marcou três décadas vivendo na Espanha. "Foi o ano em que deixei de ser filho para ser só pai", disse em entrevista. "Senti a necessidade de me reconectar com o Uruguai, não sei bem por quê." A resposta veio através das rodas de candombe que tomaram conta de Montevidéu — um fenômeno que o artista descreve como uma "revolução".
"Taracá" carrega duplo significado: é a onomatopeia do som do tambor chico, aquele instrumento que "toca todas as batidas do compasso, exceto a fundamental", nas palavras de Drexler. Mas "taracá" também é uma contração de "estar acá" — estar aqui.
As onze faixas mapeiam sonoridades latino-americanas. Uruguai, Porto Rico e Espanha formam a equação, mas é o candombe uruguaio que liga tudo. As colaborações revelam a ambição real do projeto: Rueda de Candombe, Américo Young, a murga Falta y Resto, Young Miko, Julio Cobelli e Ángeles Toledano. Drexler escolheu trabalhar com produtores uruguaios Tadu Vázquez e Facundo Balta, o engenheiro Lucas Piedra Cueva, e os produtores porto-riquenhos Mauro e Gabo Lugo — todos com idades entre 21 e 22 anos. "Eu poderia ter trabalhado com quem quisesse neste álbum", explicou. "Mas escolhi trabalhar com pessoas dessa geração."
Um momento revelador é a reinterpretação de "O Que É O Que É?", o samba de Gonzaguinha de 1982. Drexler a transformou em "¿Qué Será Que Es?" — uma versão em espanhol gravada com uma roda de candombe. "Esta música sempre me chamava a atenção nas rodas de samba quando tocava no Brasil, e era um momento de elevação espiritual. Tem uma série de questões ontológicas e filosóficas sobre o ser e sobre a vida", explicou o artista. Ele compara a estrutura da canção à de uma tragédia grega — começa com um refrão grandioso, passa por partes menores, atravessa estágios de dor e perplexidade, terminando naquela celebração inicial. "Minha intenção é levá-la a outro público, da América Latina, misturada com o candombe. Quis uma homenagem responsável, com referências ao samba, mas fazendo uma adaptação própria, como os brasileiros fazem."
No palco do Circo Voador, Drexler vem acompanhado por sete músicos em uma proposta cênica completamente inovadora. Com a base do candombe uruguaio como fio condutor, as canções de "Taracá" serão protagonistas do repertório, além de outras músicas de sua extensa carreira. A volta de Drexler ao Uruguai não é nostálgica — é perspicaz. Ele descreve a música uruguaia como estando em uma "fase particularmente interessante", com figuras muito novas fazendo pontes entre música urbana, trap e nova geração. "Eram muitas novidades que me fizeram voltar para gravar aqui", disse. E essa volta se reflete em cada faixa: não há produção excessiva, não há efeitos que distraem. Há apenas a densidade sonora de quem entende que a melhor experimentação é aquela que não abandona a tradição, mas a reinterpreta.
A relevância de Drexler é notória. Com 16 prêmios Grammy Latino e um Oscar por melhor canção original (2005, por "Al otro lado del río"), ele é um artista que cruzou fronteiras nacionais, mantendo sua autencidade. Mas "Taracá" marca algo diferente: é seu primeiro disco gravado no Uruguai em quase 30 anos, e é, por definição do próprio artista, "o mais comunitário que já fiz". Nesse sentido, Drexler fez o que os melhores artistas fazem quando vivem o suficiente para entender a diferença entre aclamação e pertencimento.
SERVIÇO
JORGE DREXLER - TARACÁ
Circo Voador (Rua dos Arcos, s/nº, Lapa)
27/5, a partir das 20h (abertura dos portões)
Ingressos esgotados