O ecletismo de Gal numa noite de brilho intenso

Repertório do show, agora lançado em álbum, é uma viagem pela riqueza melódica da MPB pela voz de uma das mais expressivas vozes brasileiras

Por Affonso Nunes

Gal Costa e Luiz Meira, guitarrista da sua banda por 19 anos, no show que a dupla realizou dentro do projeto 'Vozes do Brasil'

Álbuns póstumos costumam ser problemáticos. Entre os muitos aspectos que esses lançamentos trazem à tona é o debate sobre a real intenção do artista em lençar esse trabalho em vida. Se não fez, alguma razão havia. No entanto, há que se considerar que, independente de qualidade técnica, dociumentos hstóricos devem ser lançados. É o caso de "Gal Costa - Ao Vivo no Teatro Castro Alves". O disco, já disponível nas plataformas digitais é, sem exageros, divino e nos faz recordar a voz cristalina de Gal Costa e todo seu talento em show raro e intimista de voz e violão. Um tesouro.

O registro suntuoso imortaliza uma performance realizada em 2003, no Teatro Castro Alves, em Salvador, dentro do projeto "Vozes do Brasil". A apresentação era a concretização de um desejo pessoal da cantora, que tinha "uma vontade louca de cantar como se estivesse na sala das pessoas", conforme relatado pelo produtor musical Marco Mazzola.

O show foi acompanhado pelo violonista Luiz Meira, com quem Gal já havia se apresentado em locais como o Carnegie Hall, em Nova York. Meira destaca que o entrosamento era total e descreve a performance como "muito bonito e delicado". Com sua presença de palco marcante e magnetismo pessoal de sobre, Gal revela a dificuldade que teve ao fechar o repertório do show, faz a plateia cantar junto e até pede silêncio à audiência para que possa conversar com uma fã. O momento mais divertido dessa interações é quando ela pede aos homens na plateia que cantem o refrão de "Mulher Eu Sei", de Chico César. "Eu sei como pisar no coração de uma mulher / Já fui mulher eu sei", responde o coro.

O áudio original permaneceu duas décadas sob a guarda de Marco Mazzola, produtor e engenheiro de gravação e mixagem. Mazzola percebeu a importância de registrar "aquele show tão maravilhoso" e levou seu equipamento de captação para o teatro e agora, após o falecimento de Gal, considerou o momento ideal para o lançamento.

Mas não é só colocar o áudio no mercado. O material passou por um rigoroso e criterioso tratamento técnico de remasterização para ganhar o mundo. O trabalho reúne 25 canções que formam um amplo panorama de nossa canção popular. O repertório lotou o Teatro Castro Alves e reúne clássicos de Ary Barroso, Tom Jobim, Riachão e Dorival Caymmi, a temas de Caetano Veloso (com cinco faixas), Gilberto Gil, Djavan, Jards Macalé, Arnaldo Antunes, Alice Ruiz, Roberto e Erasmo, Chico César e Vander Lee. Tudo com a grife interpretativa de Gal e seu recohecido ecletismo. O ouvinte recebe de volta rigor técnico, sensibilidade e a impressão de estar na plateia diante de uma estrela da MPB. (Veja repertório completo no box).

Maria da Graça Costa Penna Burgos, ou seimplesmente Gal, se tornou uma das vozes mais relevantes da música popular brasileira. Sua carreira começou na década de 1960, quando a música brasileira vivia um momento de efervescência criativa. Gal iniciou seus estudos musicais cedo e rapidamente se inseriu no circuito artístico pelo qual transitavam Caetano Veloso, Gilberto Gil e Tom Zé — encontro que a levaria a ser um dos expoentes do movimento tropicalista. Participou do álbum "Domingo" (1967) ao lado de Caetano, e lançou seu primeiro disco solo em 1969. Na contramão de muitos intérpretes de sua geração, Gal não se prendia a gêneros ou estilos musicais. Com sua voz potente e versátil, cantou bossa nova, samba, rock, música nordestina e blues, sempre com uma capacidade singular de reinventar as canções que interpretava. A Rolling Stone a descreveu como "a vocalista feminina mais transcendente da era pós-bossa".

Nos anos 1970 e 1980, conheceu o topo da MPB. Gravou dezenas de discos, participou de trilhas sonoras de filmes e novelas, e conquistou uma base de fãs do tamanho do Brasil. Escolhia criteriosamente seu repertório, recorria a compositores da grandeza de Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Caetano Veloso, Chico Buarque e Ary Barroso. Mas, generosa, Gal também se abria para artistas contemporâneos e novos compositores.

O álbum, uma realização das gravadoras Biscoito Fino e MZA Music,será futuramente lançado em vinil.