Menescal e Peranzzetta: a primeira vez a gente nunca esquece

Reunião dos talentos ddos dois músicos resulta num álbum elegante e classudo, da primeira à última nota

Por Affonso Nunes

Um disco classudo, da primeira à última nota. Este é "O Mundo Livre de Menesca & Peranzza". Depois de mais de cinco décadas convivendo nos mesmos estúdios e palcos, Roberto Menescal e Gilson Peranzzetta finalmente gravam um álbum juntos. O trabalho, lançado no fim da última semana nas plataformas digitais, será apresentado ao vivo no Blue Note São Paulo e no Blue Note Rio, nos dias 21 e 27 de junho, respectivamente.

A amizade entre os dois mestres começou nos anos 1970, quando Menescal era diretor artístico da Polygram no Brasil e Peranzzetta trabalhava como produtor e pianista de Ivan Lins. Naquela época, o Brasil vivia um momento de efervescência musical: a bossa nova já havia conquistado o mundo, e uma nova geração de compositores e arranjadores buscava expandir as fronteiras da música brasileira. Menescal, que havia participado do lendário Concerto de Bossa Nova no Carnegie Hall em 1962 ao lado de Tom Jobim e João Gilberto, era uma figura central nesse contexto. Peranzzetta, por sua vez, consolidava-se como um dos grandes arranjadores do país, trabalhando com Ivan Lins em álbuns que se tornaram referência, como "Modo Livre" e "Chama Acesa".

A cumplicidade entre os dois vem de décadas. Menescal, inclusive, apadrinhava o primeiro LP gravado por Peranzzetta, selando a admiração mútua e a confiança artística. Ao longo dos anos 1980, 1990 e 2000, os dois frequentemente cruzavam caminhos em projetos, mas nunca haviam dedicado um trabalho inteiro um ao outro. Até que, de forma orgânica, a oportunidade surgiu.

O projeto nasceu espontaneamente no Estúdio La Maison, no Rio de Janeiro, propriedade do produtor e baixista Didier Fernan. Fernan havia trabalhado separadamente com Menescal e Peranzzetta em diversos projetos. Nos intervalos entre gravações, os dois frequentemente se encontravam no estúdio, conversando, tocando, compartilhando ideias. O carinho, a naturalidade e a sintonia desses encontros não passaram despercebidos. Didier então idealizou um projeto que reunisse os dois mestres em um álbum. A proposta foi aceita com entusiasmo. "Foi uma experiência fantástica, fiquei feliz em gravar e produzir esses dois ícones da música brasileira", comemorou Fernan.

O disco reúne nove faixas que refletem a trajetória artística de ambos. Quatro composições são de Roberto Menescal, incluindo "Agarradinhos" (em parceria com Rosalia De Souza) e "Obsession" (com Dori Caymmi). Quatro são de Gilson Peranzzetta. E há uma parceria inédita da dupla: "Samba Impossível", composta especialmente para este projeto e que abre o álbum. "O Gilson fez a primeira parte aí o Menescal falou assim mas isso é impossível. Aí ele fez a segunda e ele batizou de samba impossível", conta Didier Fernan. A tampa fecha com uma versão cheia de improvisos para o tema instrumetal de "Bye Bye, Brasil", parceria de Menescal com Chico Buarque.

"Não tem mais gravadoras, mas eu continuo produzindo discos... estou muito ligado nas pessoas que vêm com vontade de fazer...", comenta Menescal que, aos 88 anos, continua ativo e produtivo. Nos últimos anos, lançou "Nós e o Mar" (2023), "O Lado B da Bossa" (2025) e "Bossa Sempre Nova" (2026). Ele segue compondo, apresentando-se frequentemente e recebendo pesquisadores e jornalistas interessados em sua perspectiva sobre a história da bossa nova. É o último sobrevivente do elenco original daquele Concerto de 1962 — um testemunho vivo de uma era que transformou a música brasileira. E no próximo ano lançará um álbum reunindo canções feitas com seu mais novo parceiro, o canto e compositor Theo Bial, de 28 anos.

Peranzzetta, que completou 80 anos em abril (celebrados com um concerto especial no Jardim Botânico), é uma figura menos visível ao grande público, mas absolutamente central na MPB. Suas composições foram gravadas por mais de 200 artistas no Brasil e no exterior. Trabalhou com nomes como Milton Nascimento, Egberto Gismonti, Luiz Eça, Gal Costa, Nana Caymmi, Gonzaguinha e Leny Andrade. Sua parceria com Ivan Lins, iniciada nos anos 1970, resultou em álbuns memoráveis.

Divulgação - O Mundo de Menesca &Peranzza

A gravação, mixagem e masterização de "O Mundo Livre de Menesca & Peranzza" ocorreram no La Maison e a formação do disco inclui Didier Fernan no baixo e Ricardo Costa na bateria — dois músicos que completam a sonoridade do projeto com precisão e sensibilidade.