O tempo refletido

António Zambujo inicia turnê brasileira de 'Oração ao Tempo', seu novo álbum. Apresentação no Rio será no dia 16 no Circo Voador

Por Affonso Nunes

O alentejano António Zambujo escreve mais um capítulo de sua longeva relação com a música brasileira na turnê 'Oração ao Tempo'

António Zambujo inicia turnê brasileira de 'Oração ao Tempo', seu novo álbum. Apresentação no Rio será no dia 16 no Circo Voador

António Zambujo chega ao Brasil em maio com a turnê de lançamento de "Oração ao Tempo", seu 11º álbum de estúdio. O cantor português se apresenta no Circo Voador no dia 16 de maio, com participação especial de Chico Chico, integrando uma série de 12 shows que passa por São Paulo, Porto Alegre, Florianópolis, Belo Horizonte, Recife, Fortaleza, Campinas, Brasília, Goiás e Ilhabela.

Nascido em Beja, no Alentejo, Zambujo é um dos maiores representantes da música portuguesa contemporânea. Seu percurso começou traçado entre o fado e o cante alentejano — influências que cresceram com ele desde a infância — mas rapidamente recusou ficar preso a gêneros e escolas musicais. Sua relação com a música brasileira é antiga e genuína. Ele gravou um álbum inteiro dedicado a Chico Buarque, "Até Pensei Que Fosse Minha" (2016). Antes disso, já havia gravado canções de Tom Jobim, Vinicius de Moraes, e Roberto e Erasmo Carlos.

Essa conexão profunda ganha novo capítulo em "Oração ao Tempo", com Caetano Veloso participando em dueto na faixa-título — um encontro que marca a primeira vez que o português grava uma canção de Caetano. A gravação aconteceu no estúdio do baiano, no Rio, um encontro que Zambujo descreve como "honroso".

Reprodução YouTube - António Zambujo e Caetano durante a gravação da faixa-título

O álbum foi concebido ao longo dos últimos anos, a partir de reflexões iniciadas durante a pandemia. Propõe um olhar sensível sobre o tempo: sua passagem, seu aproveitamento e a importância de desacelerar para fazer melhor. Com esta premissa, gravar "Oração ao Tempo", uma das mais belas craiações de Caetano fazia todo sentido.

"Este disco vem sendo pensado há vários anos, quase sem dar conta. Começou na pandemia, com a canção 'Pequenos Prazeres', e acabou por nascer desta reflexão sobre o tempo, sobre valorizá-lo, aproveitá-lo e fazer as coisas devagar. Não é tanto fazer menos, mas fazer menos para fazer melhor", explica Zambujo.

Com 15 faixas, o álbum reúne composições inéditas e parcerias recorrentes, como Maria do Rosário Pedreira, João Monge e Pedro da Silva Martins, além de nomes da nova geração portuguesa, como Carolina Deslandes, Mimi Froes, Rita Dias e Diogo Zambujo, seu filho. O trabalho inclui ainda releituras de Tom Jobim e Torquato Neto, e poemas de Vinicius de Moraes, Amalia Bautista e João Paulo Esteves da Silva, incorporados à narrativa do disco.

A trajetória de Zambujo com a música brasileira é progressiva e aprofundada. Começou com a bossa nova — João Gilberto, Tom Jobim, Vinicius de Moraes — e evoluiu para uma relação mais intensa com Caetano Veloso e, especialmente, com Chico Buarque. O álbum "Até Pensei Que Fosse Minha" apresentou um intérprete que compreende a densidade poética e a delicadeza emocional que a obra buarqueana exige.

Em formato de show com banda, o repertório ganha corpo no palco com os músicos que acompanham Zambujo e que também gravaram o disco. A formação inclui João Salcedo (piano), Bernardo Couto (guitarra portuguesa), João Moreira (trompete), Francisco Brito (contrabaixo), José Conde (clarinete baixo) e André Santos (guitarra), que também assina arranjo e produção do álbum. Diogo Zambujo, filho mais velho do artista, faz o show de abertura em todas as datas da turnê.

Divulgação - Capa de 'Oração ao Tempo'

Artista que entrega delicadeza, precisão e forte carga emocional em suas interpretações, António Zambujo está além da música tradicional portuguesa e da influência brasileira. É a síntese de tudo isso, filtrada pela sensibilidade de um artista que compreende que as fronteiras são mais flexíveis do que podemos imaginar.

SERVIÇO

ANTÓNIO ZAMBUJO

Circo Voador (Rua dos Arcos s/nº — Lapa)

16/5, às 22h

Ingressos a partir de R$ 160 e R$ 80 (meia)