Alice relê Caymmi. Sem reverências
Novo álbum da cantora transforma clássicos do avô em reggae, hip hop e salsa
Novo álbum da cantora transforma clássicos do avô em reggae, hip hop e salsa
Neste dia 30 de abril - data do aniversário de Dorival Caymmi - sua neta Alice lança o álbum "Caymmi", trbalho que revisita 12 clássicos do avô sem o clima cerimonial. Com produção de Iuri Rio Branco, o disco leva o cancioneiro do mestre baiano para sonoridades salpicadas de reggae, hip hop, salsa e batidas eletrônicas.
A trajetória de Alice, a filha de Danilo e Simone Caymmi sempre esteve associada a rupturas estéticas, movidas pela inquietação e, por que não, pelo risco. Desde o primeiro álbum, em 2012, ela dava o recado de que não pretendia ocupar o lugar confortável de herdeira musical. O disco de estreia, "Alice Caymmi", foi reconhecido pela crítica como promissor, destacando-se pela força vocal e pela escolha de repertórios que fugiam do óbvio. Indicada ao Prêmio da Música Brasileira em 2013 na categoria Revelação, consolidou sua imagem através de discos como "Rainha dos Raios" (2014), marcado por influências do pop alternativo, rock e MPB sombria, e "Alice" (2018), que contou com participações de Ana Carolina, Pabllo Vittar e Rincon Sapiência. Em 2019, lançou "Electra", onde cantou acompanhada apenas de piano, explorando um repertório que incluía Candeia, Maysa, Elton Medeiros e Tim Maia. Seu quinto álbum, "Imaculada" (2021), apresentava repertório quase totalmente autoral.
O novo trabalho, diz ela, só seria possível com sua consolidação como artista. "Atingi um ponto de maturidade ao entender a obra do meu avó como parte de mim, e não como um fardo. Ela caminha ao meu lado em vez de competir comigo", afirma Alice, acrescentando que a morte de Nana Caymmi, sua tia, no ano passado, acelerou a decisão de gravar o álbum. "A obra do meu avó é eterna, mas não estava sendo eternizada. Chamei essa responsabilidade para mim", completa.
A seleção de faixas foi guiada pela força narrativa de obra de Dorival, morto em 2008. Sem reverências. "Dora" começa como bolero da era de ouro do rádio e ganha contornos reggae e batida eletrônica. "Canto de Obá" é das mais emocionantes, com Alice cantando versos em que o avó cita a família toda e invoca Xangô para proteger a linhagem. "Maracangalha", gravada originalmente em 1956, reparece num festivo calipso. "Canção da Partida" (Suíte do Pescador) vira salsa. "Acalanto", escrita originalmente como canção de ninar, tem sua releitura baseada na interpretação vocal de Alice. "Adeus" e "Eu Não Tenho Onde Morar" têm sua melancolia deslocada para um contexto mais urbano e moderno.
"O desafio foi trazer um olhar despretensioso para o repertório, já que Dorival é um dos compositores mais regravados da música brasileira. Procurei não me ater muito ao que já foi feito e seguir a minha assinatura musical, sempre com respeito. O resultado é um som direto ao ponto, com bastante batida e textura. O álbum carrega muito do que a Alice conta sobre o avó: um artista popular e conectado ao seu tempo. A diferença é que o tempo deste álbum é 2026", destaca Iuri Rio Branco, o produtor.
O primeiro single, "Modinha para Gabriela" (lançado em março), é a canção eternizada como tema de abertura da novela "Gabriela" (1975). Nas mãos de Alice, ganha novas cores rítmicas sem perder o reconhecimento imediato.
A base do disco está em canções que ajudaram a consolidar a identidade musical do país. Em vez de reproduzi-las, Alice opta por deslocá-las para outro lugar, outro tempo. A herança vira troca entre artistas.