Soul (muito) brasileiro
Terceiro álbum de estúdio de Cassiano (1943-2021), lançado em 1976, é reeditado, reposicionando um clássico que influenciou de Tim Maia aos Racionais MC's
Terceiro álbum de estúdio de Cassiano (1943-2021), lançado em 1976, é reeditado, reposicionando um clássico que influenciou de Tim Maia aos Racionais MC's
Cinquenta anos depois de seu lançamento original, "Cuban Soul: 18 Kilates" retorna ao mercado em seu formato original (vinil) em relançamento da Universal Music Brasil. Terceiro trabalho de estúdio de Cassiano (1943-2021), o álbum integra o projeto "Safra 76", iniciativa que revisita discos lançados que agora completam cinco décadas. O disco é um marco da soul music com a autoralidade de um artista que até hoje é referência para músicos, produtores e DJs.
Genival Cassiano dos Santos nasceu em Campina Grande (PB), em 1943, mas foi no Rio que construiu sua carreira. Nos anos 1960, tocou em casas noturnas da zona sul, acumulando experiência como guitarrista e compositor. Sua ascensão pública viria em 1970, quando participou como guitarrista no lançamento de "Primavera (Vai Chuva)", composta em parceria com Silvio Rochael e interpretada por Tim Maia. A canção se tornou clássico instantâneo, consolidando Cassiano como um compositor de primeira linha. Essa colaboração marcaria o início de uma década em que o soul brasileiro ganharia contornos próprios, diferenciados da matriz norte-americana.
Lançado originalmente pela Polydor em 1976, "Cuban Soul: 18 Kilates" documenta um momento específico da música brasileira: aquele em que o soul e o funk norte-americanos encontraram uma leitura própria ao cruzar com harmonias típicas da MPB. Cassiano não imitava o soul music dos Estados Unidos: reorganizava essas referências a partir de uma sensibilidade brasileira — no canto, na harmonia, no balanço... O artista diferenciava-se de contemporâneos como Tim Maia e Hyldon por sua abordagem mais íntima. Onde Tim Maia explorava dramaticidade vocal e orquestrações grandiosas usando e abusando do naipe de metais, Cassiano optava pela contenção, pela precisão, pela beleza das coisas simples.
O álbum se insere no contexto do movimento que a imprensa viria a batizar de Black Rio, filho direto do circuito dos bailes, das equipes de som, das trilhas de novela e da indústria fonográfica dos anos 1970. Nesse ambiente, duas canções se tornaram fundamentais para o sucesso do trabalho. "Coleção" constrói um discurso amoroso inseguro e hesitante — "Não vá… ou vá", "Sei também que você... eu não sei mais nada" — que desemboca numa afirmação inequívoca: "Quer saber? Eu amo você". A faixa ganhou circulação massiva pela novela "Locomotivas", transformando-se em trilha sonora de uma geração. "A Lua e Eu" traz uma melodia que se desloca naturalmente, com um canto que carrega emoção e efeitos precisos, sem excessos. Também impulsionada por novela — "O Grito" — a canção atravessou o nicho da black music e se fixou no repertório popular, permanecendo em rotação até hoje em rádios e plataformas de streaming.
O disco vai além desses momentos mais conhecidos. "Hoje é Natal" oferece elegância soul, com arranjos que lembram o calor de Earth Wind & Fire mas mantêm a leveza brasileira. "Ana Luiza" marca drama amoroso através da simples menção do nome no primeiro verso, onde a ingenuidade dos versos conversa com o calor da melodia. "Saia dessa fossa" injeta energia com influências diretas de Sly & The Family Stone, funcionando como respiro rítmico no álbum. "De bar em bar" bebe da disco music, enquanto "Salve essa flor" investe em lirismo romântico apoiado em imagens simples — a flor, o vento, o sol, as ervas daninhas. "Central do Brasil" é um funk irresistível onde a letra funciona menos como narrativa que como efeito sonoro: em meio ao balanço e às frases de metais, apenas se repete a palavra "Central".
No centro do álbum está "Onda", faixa longa e minimalista sustentada por um groove persistente, poucos acordes e imagens poéticas ligadas à perda e à instabilidade do desejo. A canção se tornou referência obrigatória para produtores e DJs. Décadas depois, ganhou nova circulação ao ser sampleada por artistas como Racionais MC's, que em 2002 a utilizaram em "Da ponte pra cá", evidenciando a permanência do repertório de Cassiano na cultura musical brasileira. A faixa prova que a beleza minimalista de Cassiano não era limitação, mas escolha estética deliberada — um groove que funciona tanto em 1976 quanto em 2002, tanto em vinil quanto em hip-hop.
Ao longo dos anos, "Cuban Soul: 18 Kilates" consolidou-se como obra de referência do soul brasileiro e como marco na trajetória de Cassiano. A crítica costuma ler o álbum como fechamento de uma trilogia essencial — junto com "Imagem e Som" (1971) e "Apresentamos Nosso Cassiano" (1973).
Seu relançamento em vinil recoloca em circulação um disco fundamental para compreender a consolidação da soul music brasileira e o papel de Cassiano, uma das vítimas fatais da covid no Brasil, como um de seus principais arquitetos e como uma artista que continua tocando corações, sendo dançado em bailes e festas.