Um documento raro (e necessário) da bossa nova
Universal Music Brasil relança o único álbum solo gravado por Gracinha Leporace, gravado em 1968
Universal Music Brasil relança o único álbum solo gravado por Gracinha Leporace, gravado em 1968
Em tempos de plataformas digitais é sempre bem vinda a iniciativa de gravadoras de revisar seu vasto arquivo análogico e resgatar trabalhos de relevância. E assim fez a Universal Music Brasil ao reeditar um álbum raro de 1968: o único disco solo de Gracinha Leporace, vocalista que se tornaria conhecida mundialmente como integrante dos projetos de Sergio Mendes. O relançamento chega 58 anos depois do lançamento original (pela extinta gravadora Phillips), trazendo de volta um registro que se tornou praticamente inacessível ao longo das décadas — uma oportunidade para redescobrir um momento específico da bossa nova.
Gracinha iniciou sua trajetória em 1965 no Grupo Manifesto, coletivo vocal-instrumental que reunia seu irmão Fernando Leporace, Guarabyra (da dupla com Sá), Lucinha (parceira de Luli) e os futuros produtores Guto Graça Mello e Mariozinho Rocha. Em 1967, o grupo venceu a fase nacional do II Festival Internacional da Canção com "Margarida", enquanto Gracinha conquistava o prêmio de Melhor Intérprete pela interpretação de "Canção de Esperar Você". Esse reconhecimento abriu caminho para o álbum solo de 1968, que seria seu único trabalho como artista individual.
O disco traz arranjos do violonista Oscar Castro Neves e reúne composições de nomes centrais da bossa nova e da música brasileira da época. Há faixas do pai Sebastião Leporace ("Última Batucada"), do irmão Fernando em parceria com João Medeiros Filho ("Em Tempo") e do próprio Fernando ("Canção da Desesperança"). O álbum também inclui trabalhos de compositores revelados nos grandes festivais: Sidney Miller ("Madrugada"), Dori Caymmi e Nelson Motta ("Cantiga"), Guarabyra ("Senhora, Senhorita"), Amaury Tristão e Roberto Jorge ("Mensagem") e Edu Lobo com Capinan ("Rancho de Ano Novo").
Além das composições originais, o disco apresenta quatro regravações que situam Gracinha no contexto histórico da bossa nova. "Prece", samba-canção dramático lançado por Lana Bittencourt em 1956, ganha nova interpretação. Duas composições da dupla Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli — "Sem Saída" e "Saudade Fez Um Samba", esta do repertório do primeiro LP de João Gilberto — também integram o trabalho. "Chega de Saudade", o clássico de Tom Jobim e Vinicius de Moraes também recebe a leiura de Gracinha. "'Gracinha Leporace' é um dos últimos álbuns com a estética original da bossa nova dos anos 1960", atesta o pesquisador Rodrigo Faour.
O álbum marca um ponto de virada na carreira desta excelente intérprete. Logo após seu lançamento, ela conheceria Sergio Mendes e se casaria com ele, mudando-se para os Estados Unidos em 1970. Tornaria-se a vocalista oficial dos projetos de Mendes pelas cinco décadas e meia seguintes, participando de discos que alcançariam circulação internacional significativa. Esse álbum de 1968, portanto, representa um momento único: o único registro onde Gracinha Leporace figura como protagonista de seu próprio trabalho, antes de sua carreira se entrelaçar permanentemente com a de Sergio Mendes.