Feminilidade e ancestralidade, É o Jazz das MInas

Banda formada por mulheres apresenta 'Ayé Orun', travessia entre terra e espiritualidade que evoca Nina Simone, Elza Soares e D. Ivone Lara

Por Affonso Nunes

O Jazz das Minas gosta de definir sua sonoridade como 'jazz de terreiro'

Banda formada por mulheres apresenta 'Ayé Orun', travessia entre terra e espiritualidade que evoca Nina Simone, Elza Soares e D. Ivone Lara

O celebrado Jazz das Minas leva neste sábado (14) ao palco do Dolores Club, às 21h30, o espetáculo "Ayé Orun" que o grupo define como a travessia poética entre a terra (Ayé) e o mundo espiritual (Orun), conduzida pelas Grandes Mães Orisa. Formado integralmente por mulheres — no palco e na coxia — o grupo tem a direção da pianista, cantora e compositora Ifátókí Maíra Freitas, filha de Martinho da Vila. O que elas chamam de "jazz de terreiro" é um encontro de estilos, axé e reinvenção, sempre em diálogo com as ancestrais que marcaram a música preta brasileira e internacional.

O repertório do Jazz das Minas mescla composições autorais com homenagens a grandes referências como Nina Simone, Elza Soares, Dona Ivone Lara e Alcione através de releituras focadas na sabedoria e força daquelas que abriram caminhos. Os arranjos sofisticados, cheios de swing, convidam o público a dançar e se conectar com a proposta do grupo.

O show se estrutura em torno de temas que atravessam a experiência feminina em suas múltiplas dimensões. O espetáculo fala de cura e renascimento, trazendo canções sobre nascimento, maternidade, maturidade feminina, culpa, amor e afeto. Sempre sob o olhar sensível das mulheres que criam e recriam no palco, essas narrativas ganham profundidade que transcende o meramente autobiográfico para tocar em questões coletivas e ancestrais. A liberdade do jazz funciona como fio condutor, permitindo que cada noite seja única, que cada performance seja um diálogo vivo entre as instrumentistas e o público.

A formação atual do Jazz das Minas reúne instrumentistas de diferentes idades, classes sociais e localidades que se encontram em cumplicidade criativa. Essa diversidade não é acidental; reflete a visão de Ifátókí Maíra Freitas de que o jazz — linguagem frequentemente associada a elites culturais — pertence a todas as mulheres, independentemente de origem ou trajetória.

Desde a estreia em Luanda, em 2019, o Jazz das Minas vem conquistando plateias no Brasil e no mundo. O grupo já se apresentou em cidades como Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Belo Horizonte, Porto Alegre e Vitória, com sessões lotadas e elogios da crítica que reconhecem tanto a qualidade musical quanto a importância política e cultural do projeto. Cada apresentação funciona como celebração: um convite para sentir, dançar e se conectar com a força do feminino que pulsa na música, transformando o palco em espaço de resistência, alegria e liberdade.

SERVIÇO

JAZZ DAS MINAS — AYÉ ORUN

Dolores Club (Rua do Lavradio, 10 — Centro) | 14/3, às 21h30

Ingressos: R$ 60 e R$ 30 (meia)