A obra de Arlindo Cruz sob novos ângulos

Agnes Nunes interpreta 'Será que é Amor' em projeto que reúne cantoras para homenagear o saudoso sambista morto no ano passado

Por Affonso Nunes

Agnes Nunes durante intervalo das sessões de gravação em estúdio

Agnes Nunes interpreta 'Será que é Amor' em projeto que reúne cantoras para homenagear o saudoso sambista morto no ano passado

Nascida em Feira de Santana, no interior da Bahia, criada em Campina Grande e hoje radicada no Rio, Agnes Nunes - ao 23 anos - já é uma voz que ressoa pelo país. Cantora e compositora, a jovem que ficou conhecida pela voz grave e potente acaba de lançar sua releitura de "Será que é Amor", composição de Arlindo Cruz. A faixa integra o projeto "Elas Cantam Arlindo", iniciativa da Nas Nuvens Music Group distribuída pela Virgin Music Group, que convida vozes femininas da música contemporânea a revisitar a obra do sambista carioca sob novos ângulos.

A produção da faixa foi assinada por Liminha e Boris Farias, gravada no estúdio Nas Nuvens, no Rio. O convite chegou até Agnes por um caminho inesperado: foi Vanessa da Mata quem apresentou a jovem cantora ao produtor, enviando-lhe um vídeo em que ela interpretava "Ai, Ai, Ai". O resultado foi imediato. "A Vanessa da Mata me enviou um vídeo da Agnes Nunes interpretando magistralmente a nossa canção 'Ai, Ai, Ai'. Uma versão verdadeiramente arrebatadora, não apenas pela excelência musical, mas também pela personalidade marcante e pela imagem belíssima dessa nova artista. Não tive dúvidas: fiz questão de convidá-la para integrar este projeto sublime em homenagem à obra de Arlindo Cruz", afirma Liminha.

Agnes encara a aproximação com o samba como movimento natural em sua carreira. "A música popular brasileira toca em todas as partes do Brasil, e o samba é um ritmo muito presente. Poder interpretar Arlindo é uma honra imensa e um sinal de que eu estou no caminho certo nesse novo momento", disse ela, que descreve seu momento atual como um período de renascimento artístico.

Ao mesmo tempo em que se aproxima do universo do samba carioca, Agnes faz questão de que sua identidade nordestina atravesse cada interpretação. Na releitura de "Será que é Amor", isso se traduz em escolhas estéticas deliberadas, que posicionam a cantora dentro de um diálogo mais amplo com o que tem sido chamado de nova MPB — um território musical sem hierarquias rígidas. "Tem o meu sotaque, que é algo que eu valorizo desde que comecei a cantar — o sotaque do Nordeste, da Paraíba, de onde eu venho. A gente dialoga com essa sonoridade que chamam de nova MPB, respeitando os grandes mestres", afirma.

O projeto "Elas Cantam Arlindo" teve início com a releitura de "Meu Lugar", cantada por Ivete Sangalo, e segue agora com a participação de Agnes. Os lançamentos ocorrem de forma escalonada nas plataformas digitais, e a iniciativa prevê ainda o lançamento de um documentário inédito sobre a trajetória de Arlindo Cruz, com estreia prevista para o segundo semestre de 2026, durante o Festival de Cinema do Rio. Para Ricardo Queirós, do Nas Nuvens, a participação de Agnes sintetiza aquilo que o projeto busca demonstrar. "Ver a Agnes trazer sua identidade e força feminina para essa canção reafirma a atemporalidade de Arlindo e a potência criativa dessa nova geração", destaca