Raízes em canção

Tom Ribeira faz estreia fonográfica com 'Pedaço', EP que faz da memória afetiva matéria-prima de suas criações

Por Affonso Nunes

De Botucatu para palcos europeus, Tom Ribeira mostra canções de contornos afetivos em 'Pedaço'

Tom Ribeira faz estreia fonográfica com EP que transforma faz da memória afetiva matéria-prima de suas criações

Nascido às margens de uma ribeira pequena em Botucatu, no interior paulista, Tom Ribeira faz sua estreia fonográfica aos 24 anos com o EP "Pedaço". Como nornalmente em discos de estreia, o trabalho reúne canções lapidadas pelo cantor e compositor há alguns anos. As seis faixa do EP evocam intimidade, mas não deixam de ter camadas de significado mais amplas, tudo costurado tendo a MPB como fio condutor e o samba, a bossa nova e o pop como adereços.

Com canto suave, Tom se debruça sobre as pequenas grandes histórias da vida em canções que revelam um artista com perspectiva própria. O EP foi gravado após um ano de imersão criativa e abre com a faixa-título, composta ainda na adolescência. "Escrevi essa canção quando tinha 18 ou 19 anos, com um sentimento muito intenso de conhecer o máximo de pessoas possíveis e ser especial para essas pessoas, no amor e na amizade, deixando um pedacinho meu com cada pessoa. Então, aos 24 anos eu nomeio este meu primeiro EP acreditando que é um pedaço meu e de outras pessoas que se envolveram com este trabalho e que, por fim, chega ao mundo", explica Tom.

Em versos singelos e melodias que balançam com naturalidade, o artista costura histórias de origem, saudade e relações humanas com uma leveza que não esconde a profundidade do olhar. "Botucatu" talvez seja a faixa mais reveladora do disco. Em versos que evocam o Rio Lava-Pés, a Cuesta e o pão comprado no mercadinho da ladeira, Tom transforma a geografia afetiva da cidade natal em poesia. "É uma canção de cunho pessoal, mas que também torna universal a linguagem do que é ter nascido na América do Sul, mas ao mesmo tempo sem fronteiras", diz o compositor.

Já "Marroquina", cantada parcialmente em francês, nasceu de um voluntariado na Europa — viagem interior e exterior que mostrou ao artista como a linguagem da canção pode ultrapassar qualquer limite geográfico. "Baião de Dois", por sua vez, homenageia a culinária nordestina com afeto e repertório: "Quis deixar um momento eternizado nesta canção, com minhas referências de baião, de forró e de música nordestina", conta Tom cujo estilo pessoal bebe de fontes especiais como a tradição cronista de Dorival Caymmi, Cartola ou Adoniran Barbosa e flerta com o experimentalismo de Itamar Assumpção.

Desde os 18 anos, Tom construiu presença sólida nas redes sociais com interpretações autorais e de repertório popular, acumulando mais de 400 mil seguidores. Em 2022, partiu de Botucatu para um mochilão que o levou a estrear em palcos históricos de Paris — La Cigale e L'Elysée Montmartre. Hoje, percorre o Brasil com a turnê de apresentação do EP, que propõe um show intimista onde as composições inéditas dialogam com as canções que marcaram sua formação.