O álbum que consolidou uma obra verdadeiramente genial

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Capa do álbum Cartola (1976)

Affonso Nunes e Walter Firmo (fotos)

Gênio é uma palavra que o tempo desgasta. Seu uso repetido tende a esvaziar a ideia com elogios de ocasião. Mas no caso de Angenor de Oliveira, o Cartola, a palavra encontra seu significado original. Suas composições, de melodias sofisticas e poesia sublime, comprovam a força deste artista nascido no seio do povo que sobreviveu a tudo — à pobreza, ao esquecimento, à invisibilidade de décadas.

Nascido no Rio de Janeiro em 1908, foi um dos fundadores da Estação Primeira de Mangueira em 1928 e viu suas composições serem gravadas por nomes como Carmen Miranda e Aracy de Almeida enquanto ele mesmo trabalhava como servente de pedreiro, longe de qualquer holofote.

Quando a Discos Marcus Pereira finalmente apostou nele, em 1974, Cartola tinha 66 anos e um baú de canções que o Brasil ainda não conhecia inteiramente. O disco de 1976 — lançado dois anos depois, sob produção de Juarez Barroso, e hoje reeditado em vinil pela Universal Music Brasil dentro do projeto Safra 76, relançado em vinil verde nos concida a escutar de novo — ou pela primeira vez — um disco que o tempo só fez engrandecer.

A fotografia da capa do disco de 1976 é de autoria do fotógrafo Walter Firmo, uma lenda viva da fotografia brasileira. Ele clicou Cartola e Dona Zica num momento espontêneo na janela de casa sem qualquer encenação - ele de óculos escuros, ela com lenço na cabeça, os dois olhando a rua. A naturalidade dessa imagem reforça o conteúdo do ábum.

Pode-se dizer que essa imagem guarda muito da história de Cartola. Tem a quietude de quem já atravessou tudo — a glória precoce como fundador da Mangueira, o esquecimento longo, o reencontro providencial com o jornalista Sérgio Porto no fim dos anos 1950, quando Cartola sobrevivia numa barraca de comida no morro.

A Discos Marcus Pereira não era um selo qualquer. Movida por um projeto cultural consistente, a gravadora se dedicava a registrar repertórios de alto valor histórico que o mercado ignorava como sambas, cantos regionais, músicas de tradição oral. O elenco instrumental convocado para a sessão era digno da obra de Cartola, era de se tirar o chapéu: Dino 7 Cordas (violão de sete cordas), Meira (violão de seis), Canhoto (cavaquinho) - esses vindos do primeiro álbum -, Altamiro Carrilho (flauta) e um jovem Guinga também ao violão. Juntos, eles executam arranjos de rara beleza em forma de samba, choro, samba-canção e seresta. A voz de Cartola — suave, grave, contida, quase conversada — atravessa esse tecido sonora com o lugar de fala, de alguém que canta do fundo alma aquilo que viveu. Se o primeiro disco havia revelado ao grande público a existência dessa voz expressiva e singular, o álbum de 1976 revela uma segurança artística ainda maior.

Fotos/Walter Firmo - Cartola: a silhueta do poeta diante de rosas, essas que não falam

O repertório do álbum é como se fosse uma antologia da obra de Cartola. Apontada por muitos como a mais bela criação de Cartola, "O Mundo é um Moinho" abre o lado A. A flauta de Altamiro Carrilho anuncia uma melodia pungente que sustenta um conselho construído sobre as marcas do sofrimento numa reflexão amarga sobre a vida.

"Minha" mantém a desilusão amorosa sob andamento mais vivo, com o trombone de Nelsinho em diálogo constante com o canto. Em "Sala de recepção", o morro da Mangueira surge descrito com a delicadeza e a lucidez de quem conhece cada pedra do caminho — o poeta não oculta a pobreza de sua gente, mas revela sua nobreza em versos como "Habitada por gente simples e tão pobre / Que só tem o sol que a todos cobre / Como podes, mangueira, cantar?" ou "Minha mangueira essa sala de recepção / aqui se abraça o inimigo / como se fosse irmão".

"Não Posso Viver Sem Ela", parceria com Bide, acelera o passo sem abandonar o lamento — e o trombone de Nelsinho sublinha a oscilação entre queixa e graça enquanto o narrador chama a amada de "fingida" e "malvada" e se declara pronto a perdoá-la outra vez. "Preciso Me Encontrar", esta de Candeia, encontra em Cartola seu intérprete definitivo. "Peito Vazio", parceria com Elton Medeiros, encontra no clarinete a forma de evocar a saudade que a canção entrega.

O lado B não perde a exclência. "Aconteceu" retoma a história de fim de amor sob a perspectiva de quem observa o arrependimento alheio e abre caminho para a sublime "As Rosas Não Falam", uma das mais singelas declarações já escritas em forma de música — costurada pelo diálogo do violão de sete cordas com a flauta.

Walter Firmo - Cartola gravou seus discos no fim da vida, mas deixou um legado inegável para a nossa canção popular

"Sei Chorar" faz do sofrimento condição do amar, um tema recorrente na obra de grandes sambistas. Já a dolente "Ensaboa" mistura canto de trabalho e crônica urbana com sotaque rural. A tampa do álbum fecha com uma sequência impecável: "Meu drama (Senhora tentação)", de J. Ilarindo e Silas de Oliveira, expõe a vertigem sem freios da paixão; e "Cordas de Aço" mostra ao ouvinte toda a ntimidade entre o poeta e seu violão. Entre prazeres e dissabores, Cartola fez da canção sua morada.

O peso do legado de Cartola para a música brasileira não se mede apenas pelo número de clássicos que assinou, mas por elevar o samba a um patamar de excelência poética que poucos compositores brasileiros alcançaram.

A crítica consagrou o disco, constamente listado entre as obras-primas da MPB. Tudo embalado pela cena da capa: a janela, o casal, a rua lá fora. O relançamento em vinil devolve ao disco sua materialidade — o peso do objeto físco, a sequência pensada para cada lado do acetato. Fazê-lo girar pelas agulhas meio século depois, é como uma oração. A janela para noz fazer sonhar continua aberta.