Sororidades de peito aberto

MUBI abre uma apoteose nas plataformas digitais para a estética da carioca Eunice Gutman, cineasta que afinou o cinema brasileiro com a reflexão feminista, debatendo causas sociais

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Eunice Gutman despontou no cinema nos anos 1980 a partir de um .doc sobre a Rocinha

MUBI abre uma apoteose nas plataformas digitais para a estética da carioca Eunice Gutman, cineasta que afinou o cinema brasileiro com a reflexão feminista, debatendo causas sociais

Filha de uma pernambucana e de um polonês, nascida e criada em Botafogo em tempos pré-Grupo Estação, Eunice Gutman vira e mexe marca presença nas salas da Voluntários da Pátria, onde seu cinema de escuta, politicamente feminino, poeticamente feminista, já ganhou mostra e exposição. Neste momento em que afina um .doc sobre a jovialidade do verbo envelhecer, chamado "Nunca É Tarde", a diretora carioca ganha uma nova vitrine, agora no streaming: a MUBI. A plataforma digital de curadoria humanizada aproveita o festejo do Dia Internacional da Mulher para iniciar, já nesta sexta-feira, uma retrospectiva afetuosa de uma documentarista conhecida pela delicadeza, vide sua obra-prima "Vida De Mãe É Assim Mesmo?" (1983).

Esse já achou seu lugar no www.mubi.com, que selecionou ainda "Mulheres: Uma Outra História"; "Duas Vezes Mulher"; "Só no Carnaval" (codirigido por Regina Veiga); e "E o Mundo Era Muito Maior Que a Minha Casa". Completa o pacote "Eunice Gutman Tem Histórias", poema filmado que Lucas Vasconcellos fez sobre a realizadora.

Divulgação - Cena de Cena 'Só no Carnaval.'

"É uma alegria muito grande saber que um percurso trilhado com muita luta pode alcançar um outro público, em casa, via internet, sem deixar de lado o que venho preparando para a tela grande. Sou de uma época em que filme brasileiro sofria contra-ataque toda hora, naquela história do 'fale mal, mas fale do cinema nacional', e a gente aprendeu a resistir, a durar", diz Eunice, num papo com o Correio, antecipando sua participação de um coletivo de artistas, estruturado pela realizadora Nicole Algranti, para transformar a prosa de Clarice Lispector (1920-1977) em segmentos de um longa-metragem.

Nesse projeto, que vai nascer já, já, Eunice filmou "Mal-Estar De Um Anjo". Em paralelo, ela toca, aos poucos, "Nunca É Tarde".

"Gabriel García Márquez dizia: 'Envelhecer é para os fortes'. Parto disso nesse longa que eu estou preparando há uns 30 anos. Cheguei a entrevistar minha mãe, quando ela tinha 84 anos, para essa narrativa. Ela fala dos preconceitos que a velhice atura", diz Eunice, elogiando a luta do produtor Cavi Borges para viabilizar sua empreitada. "O moço Cavi é um guerreiro. Com ele, devagarzinho, eu vou fazendo, do meu jeito".

Memórias de um cotidiano pouco conhecido costumam servir como bússola para Eunice nas telas, nutrindo uma filmografia que ultrapassa matrizes etnográficas na criação de uma poética de inclusão. Isso fica evidente em "Mulheres: Uma Outra História", de 1988, que ganhou uma exposição nas Casas Casadas, em 2022. À época, Eunice explicou ao Correio da Manhã: "No meu mergulho no social, chega um momento em que eu descubro que o pessoal é político. Daí o meu interesse ter se tornado bem maior pela condição da mulher na sociedade, o que, no fundo, traduz a minha experiência de vida".

O que a MUBI confere a partir deste fim de semana é uma obra pautada pela delicadeza. Em "Duas Vezes Mulher", no Vidigal, a câmera de Eunice mostra uma rua cavada e erguida por Jovina, uma das personagens. É a rua a qual ela deu nome. Rua que ela e suas colegas de bairro construíram. Ali, barro e tijolo são ventres que geram acolhimento.

Divulgação - Cena do documentário 'E o Mundo Era Muito Maior Que a Minha Casa' documentário de Eunice Gutman.jpg

"Tudo é ficção, pois o real, como instância, não existe, mas, assim mesmo, trago um pouco de realidade para essa percepção do mundo", diz Eunice.

No filme "Nos Caminhos do Lixo", sobre as catadoras de Jacutinga, a cineasta filma mulheres que reúnem material reciclável, formando cooperativas. Com isso tiraram carteira de identidade, aprenderam a ler e a administrar suas vidas e se organizarem. Elas se fortalecem conjuntamente, em grupos que se apoiam. É um estudo sobre sororidade. Num empenho de entender melhor certos pruídos sexistas das religiões, Eunice rodou "Feminino sagrado", no qual encontrou uma freira, numa periferia, que rezava a missa porque não havia padres no local. Nesse filme, vemos a liturgia das religiões de matrizes africanas, nas quais as mulheres têm papel preponderante. Numa investigação do povo judeu, ela buscou por mulheres que liam a Torah. "A cada filme, encontro mulheres que são, naturalmente, lideranças", diz Eunice.

A prática da leitura desenha seu "A Rocinha Tem Histórias", no qual crianças queriam se ver mais e melhor representadas nos livros escolares, contando aquilo que imaginam da vida, sob o filtro da fantasia e da esperança. Era importante o fato de que as mulheres que fundaram as escolas comunitárias tinham um olhar praquela criançada, filha de migrantes do Nordeste. Quando Eunice entrou para o cinema, nos anos 1970, o documentário era mais acessível ao produtor independente em termos de orçamento. Em seus caminhos pela criação, ela abraçou a não ficção como meio de buscar a voz das mulheres, fossem elas crianças, jovens adultas ou pessoas 60 mais, como a senhora que aprende a ler, aos 77 anos, em "E O Mundo Era Muito Maior Que A Minha Casa". A escolha do título vem do seu depoimento, quando ela conta o que descobriu depois que aprender a ler. Ali Eunice cria uma grafia sinestésica singular, que faz dela uma gigante em sua cartografia de resiliências.