Hermínio não acaba aqui
Correio ouviu antes o belo álbum de inéditas do poeta e compositor que chega nesta sexta (27) às plataformas digitais
Correio ouviu antes o belo álbum de inéditas do poeta e compositor que chega nesta sexta (27) às plataformas digitais
Hermínio Bello de Carvalho poderia, com toda a razão do mundo, viver de passado. Sete décadas de contribuição à música popular brasileira dão a qualquer um o direito de sentar na varanda e simplesmente acompanhar o crescimento dos frutos plantados. Mas Hermínio não é de varanda. Aos 90 anos, o compositor, poeta e produtor carioca chega a essa marca com um álbum de inéditas e a mesma disposição dos iniciantes.
"Hermínio Bello de Carvalho - 90 anos" chega às plataformas nesta sexta-feira (27) scoito Fino. O Correio ouviu antes essas oito faixas, nascidas de parcerias com artistas de gerações e estilos distintos, além de um poema recitado pelo próprio Hermínio que vale sozinho o disco inteiro. "É um espanto descobrir que Hermínio Bello de Carvalho tem inéditos na gaveta, seja um poema, uma letra de samba ou um único verso. O mundo não anda tão bem das pernas que possa passar sem o menor vestígio da sensibilidade de Hermínio", escreveu um velho amigo, o jornalista e escritor Ruy Castro, no texto de apresentação ao álbum.
Vale lembrar que Hermínio é o responsável por espetáculos que mudaram a percepção da música popular brasileira — o "Rosa de Ouro", de 1965, que revelou Clementina de Jesus ao grande público; e o antológico disco "Elizeth Sobe o Morro", do mesmo ano, que reuniu Elizeth Cardoso com os sambistas do morro num encontro histórico. É também o idealizador do Projeto Pixinguinha, criado em 1977 e ativo até hoje, que levou música de qualidade a cidades Brasil afora a preços populares. Como compositor tem parcerias do quilate de Cartola e Paulinho da Viola, de Cartola. Hermínio não é testemunha da história da canção brasileira, é um de seus autores.
E este patrimônio vivo de nossa música chega aos 90 anos abrindo a gaveta e distribuindo novas canções como quem oferece café aos amigos. "Seu novo álbum nasce como um rio caudaloso e novidadeiro. Caudaloso tanto pela riqueza das canções, quanto pelo conjunto de artistas interpretando seu cancioneiro inédito", resume Vidal Assis, parceiro em três das oito faixas do disco e um dos articuladores do projeto.
As parcerias musicais do disco dizem muito sobre a personalidade plural e agregadora de Hermínio. Simone, que abre o álbum em "De Nada Valeu" e ainda aparece em outras duas faixas ("Dia Sim, Dia Não" e "Como se Faz"), leva sua maturidade a este disco que exala sensibilidade. Vindo de um universo aparentemente distante, Frejat encontra em "Carrapicho" um ponto de convergência improvável, tocando ele mesmo violão, guitarra barítono, baixo e percussão, numa produção intimista que coloca frente a frente a delicadeza poética de Hermínio e a garra roqueiro. Áurea Martins e Vital Lima interpretam juntos "Igual Ao Que Não Foi / Catando estrelas", numa faixa que celebra o samba com a naturalidade de quem nunca precisou forçar nada. O jovem de alma veterana Ayrton Montarroyos recebe "Cabernet Sauvignon", parceria de Hermínio com Vidal Assis, acompanhado apenas pelo violão preciso de João Camarero — num arranjo que tem a coragem de ser simples (e não menos sublime). E Gabi Buarque, voz cada vez mais presente na nova cena carioca, interpreta "Jogo Empatado", composição a três mãos de Hermínio, Vidal Assis e Kiko Horta.
Mas é numa faixa sem música que o disco revela talvez seu momento mais tocante. Em "Las Hormigas", Hermínio recita sozinho um poema de sua autoria. "Hermínio recita seu poema, que nos ensina sobre a eternidade do artista através do seu ofício." O verso final, "Eu, enfim, não acabo aqui", dito assim, por alguém que ainda tem inéditos na gaveta aos 90 anos, extrapola a poesia para se firmar como propósito.
Ruy Castro encerra o texto de aprseentação com sua elegante ironia: "Hermínio, irmão, ainda falta muito para o ali adiante. E vai por mim: os primeiros 90 anos são os mais difíceis." O álbum confirma a teoria.
