Sem medo de ser melancólico

Banda chilena Macha y El Bloque Depresivo estreia no Rio com um repertório que atravessa o continente americano entre boleros, valsas e desilusões

Por Affonso Nunes

Macha Y El Bloque Depresivo aposta na canção que arregaça corações

Banda chilena Macha y El Bloque Depresivo estreia no Rio com um repertório que atravessa o continente americano entre boleros, valsas e desilusões

Cinquenta e dois mil pessoas num estádio de futeboç não é o tipo de plateia que costuma caber num subsolo. Mas é exatamente essa equação que faz da estreia da Macha y El Bloque Depresivo no Rio um acontecimento interessante. A banda chilena, que lotou o Estádio Nacional de Santiago em dezembro, escolheu o Manouche para sua estreia carioca e os ingressos de quinta-feira esgotaram antes que alguém percebesse.

A história do grupo começa muito antes do estádio — e num lugar bem menos glamouroso. Aldo Asenjo, o "El Macha", nasceu em 1968 em Villa Alemana, cidade de 150 mil habitantes no interior do Chile com forte tradição de rock alternativo. Depois de passar por bandas de ska e rock pesado com La Floripondio — com quem chegou a turnê pela Europa, tocando em bares e casas ocupadas — e de fundar o Chico Trujillo, projeto de cumbia que curiosamente fez mais sucesso em Berlim do que em Santiago, El Macha encontrou no romantismo o seu território definitivo.

O Bloque Depresivo nasceu, conta a história, como um intervalo nos shows do Chico Trujillo: um bloco de canções tranquilas, melancólicas, que o próprio Macha inseria para baixar a temperatura do baile. O público ficava. E ficava cada vez mais.Fundado oficialmente em 2010, o grupo construiu sua trajetória à margem das lógicas comerciais — sem entrevistas, sem promoção em rádio, sem o apoio da indústria. O fenômeno se espalhou de boca em boca, show a show, vídeo a vídeo, numa progressão orgânica que eventualmente encheu o Théâtre de la Ville em Paris e, quinze anos depois, o maior estádio do Chile. "Não é moda, é identidade", resumiu a jornalista musical Marisol García, autora do livro Llora, corazón. El latido de la canción cebolla.

O que atrai tanta gente não é exatamente novidade, mas talvez seja por isso que funciona tão bem. Vocalista, compositor e alma do grupo, Asenjo montou um repertório que aposta no que o pop há muito abandonou: a canção que dói. Boleros porto-riquenhos, valsas peruanas, o tranco sincopado do son cubano, o peso dramático dos cantores mexicanos — tudo aquilo que a indústria foi descqartando agora volta embalado numa estética sem medo de cantar o romantismo e a melancolia.

A lista de referências diz muito sobre a intenção do projeto. Silvio Rodríguez, Víctor Jara e Chavela Vargas — vozes que carregam história política tanto quanto história musical — dividem espaço com Sandro, o ídolo pop argentino de cabelos negros e fãs em desespero, com o afro-peruano Zambo Cavero e com o Trio Matamoros, escola fundadora do bolero cubano. Entra ainda a banda italiana Matia Bazar, dos anos 80, e o cantor Jorge "Negro" Farías num repertório que trata o erudito e o popular com a mesma reverência.

Numa era em que algoritmos fragmentam o gosto musical, o Macha y El Bloque Depresivo zarpa na direção oposta ao devolver ao público uma América Latina que ele talvez não soubesse que sentia falta.

SERVIÇO

MACHA Y EL BLOQUE DEPRESIVO

Manouche (Rua Jd. Botânico, 983) | 26/2, às 21h | Ingressos esgotados