Apanhei-te, bandolim!
Formado pelos instrumentistas Maik Oliveira e Rafael Esteves, o Banduo aproxima o choro da música de câmara no álbum 'Dobras'
Formado pelos instrumentistas Maik Oliveira e Rafael Esteves, o Banduo aproxima o choro da música de câmara no álbum 'Dobras'
A participação em rodas e samba e pagode na periferia paulistana foi o ponto de partida de Maik Oliveira - criado em São Bernardo do Campo - Rafael Esteves, de Guarulhos. Os dois bandolinistas percorreram um longo caminho até chegar ao choro e, de lá, à música de câmara. O resultado desse trajeto improvável é o surpreendente "Dobras", álbum que o duo Banduo lança nas plataformas digitais nesta sexta-feira (27). O Correio ouviu antes essas dez faixas inéditas com propostas arrojadas para o instrumento.
O bandolim tem uma história antiga. Surgiu na Itália entre os séculos XVI e XVII como evolução do alaúde. Atravessou a Europa como instrumento de salão e serenata. Popular na fado português, chegou ao Brasil no século 19 e por muito tempo funcionou aqui como apoio ao estudo do violino, já que compartilham a mesma afinação. Foi preciso esperar o século 20 e a chegada de Jacob do Bandolim para que o instrumento conquistasse linguagem e voz próprias, tornando-se uma das marcas mais características do nosso choro. Em "Dobras", Maik Oliveira e Rafael Esteves honram essa herança e se embrenham num território completamente novo.
O título do disco brinca com a natureza do projeto — um duo de bandolins, instrumento de cordas dobradas, com duas vozes que se entrelaçam em contraponto. São cinco compositores e cinco arranjadores, entre eles Edmilson Capelupi, Milton Mori, Marcílio Lopes e Alisson Amador, que assina também a direção musical. A chegada de Amador, músico de formação clássica nascido em Heliópolis (SP), é parte essencial da história. O que começou como uma colaboração pontual (professor de rítmica do duo) evoluiu para a direção do álbum pela afinidade surgida entre os três.
O resultado é um disco em que o clássico conversa com o choro e vice-versa. A abertura, "Estudo em G Menor", de Rafael Esteves, nasce como exercício de técnica e ganhou segunda voz no arranjo de Milton Mori. Uma surpresa tonal no meio do caminho dá a medida do que Maik e Rafael tem a mostrar. "Manu", de Edmilson Capelupi, homenageia a filha de Maik em três partes bem definidas: acompanhamento, solo e equilíbrio final entre os dois bandolins num dueto sublime. Já a "Suíte Banduo", de Rafael Esteves, percorre três movimentos — uma valsa inspirada no joropo venezuelano, uma valsa-choro melancólica e um choro vibrante de encerramento — revelando a versatilidade do duo.
"Portal Favela", de Alisson Amador, é a faixa mais simbólica do disco. Narra a história dos três músicos que atravessaram o "portal periférico" e celebram juntos na arte — uma declaração de pertencimento tão musical quanto biográfica. Já "Conversa de Bandolins", de Milton Mori, foi a primeira música estudada pelo duo para o álbum. É uma declaração de amor ao instrumento. O disco fecha com "Não Foi Dessa Vez!", de Maik Oliveira — uma peça que nasceu para um festival, chegou tarde demais para se inscrever e permaneceu inédita até encontrar aqui seu lugar certo.
