U2 solta um grito contra a normalização da brutalidade
EP 'Days Of Ash' marca retorno urgente da banda antes do novo álbum previsto para o fim do ano
EP 'Days Of Ash' marca retorno urgente da banda antes do novo álbum previsto para o fim do ano
A canção não pode esperar. Um grito que não pode ficar suspenso no ar. A máxima explica o lançamento surpresa de "Days Of Ash", EP inédito do U2 composto por cinco faixas e um poema — "American Obituary", "The Tears Of Things", "Song Of The Future", "Wildpeace", "One Life At A Time" e "Yours Eternally", esta última com participação de Ed Sheeran e do músico ucraniano Taras Topolia. O projeto chega antes do álbum completo previsto para o fim do ano e se impõe como resposta imediata ao momento político global — um registro sonoro de espanto, luto e rebeldia diante de um mundo que normaliza a brutalidade.
"As músicas de 'Days Of Ash' são muito diferentes daquelas que vamos incluir no álbum que sai mais adiante neste ano. Em clima e em temática. Mas as faixas deste EP não podiam esperar; eram músicas ansiosas para ganhar o mundo. São canções de rebeldia, de espanto e de lamento. As músicas de celebração virão depois", escreve Bono, em nota de apresentação do trabalho. "Diante de toda a brutalidade que vemos ser normalizada diariamente nas nossas pequenas telas, não há nada de normal nesses tempos insanos e enlouquecedores, e precisamos enfrentá-los antes de voltar a ter fé no futuro", completa.
Para o baterista Larry Mullen Jr., o timing é parte essencial da proposta. "Do jeito que o mundo está agora, parece o momento certo. Desde os nossos primeiros dias, trabalhando com a Anistia Internacional ou o Greenpeace, nunca evitamos nos posicionar. Às vezes isso pode ficar um pouco complicado — sempre há algum tipo de reação —, mas é uma parte importante de quem somos e da razão de ainda existirmos", afirma o músico. Adam Clayton, por sua vez, é direto: "Estou animado com essas novas músicas; parece que elas estão chegando na hora certa."
Quatro das cinco faixas são retratos de pessoas reais cujas vidas foram interrompidas pela violência política. "American Obituary" parte de um episódio ocorrido em Minneapolis, em 7 de janeiro de 2026, quando Renée Nicole Macklin Good, mãe de três filhos, foi baleada enquanto protestava pacificamente — direito garantido pela Primeira Emenda americana. Desarmada, foi chamada de "terrorista doméstica" pelo governo. "The Tears Of Things" trata dos escritos do frade franciscano Richard Rohr sobre como viver com compaixão em tempos de violência, e tece um diálogo imaginário entre o Davi de Michelangelo e seu criador — em que o jovem recusa a ideia de precisar se tornar Golias para derrotá-lo.
Em "Song Of The Future", a protagonista é Sarina, homenagem à iraniana Sarina Esmailzadeh, 16 anos, morta em 2022 pelas forças de segurança do regime durante os protestos "Mulher, Vida, Liberdade", deflagrados após a morte de Jina Mahsa Amini. Já "One Life At A Time" foi escrita para Awdah Hathaleen, ativista palestino e professor de inglês assassinado em 28 de julho de 2025 na Cisjordânia. Awdah foi consultor do documentário vencedor do Oscar "No Other Land". Em seu funeral, o diretor Basel Adra falou sobre a experiência palestina de ser apagado "uma vida de cada vez" — frase que o U2 ressignificou para sugerir que a paz também será construída assim, uma vida de cada vez.
"Acreditamos em um mundo onde fronteiras não sejam apagadas à força. Onde cultura, língua e memória não sejam silenciadas pelo medo. Onde a dignidade de um povo não seja negociável. Essa crença não é temporária. Não é moda política. É o chão em que pisamos", reflete The Edge.
A faixa de encerramento, "Yours Eternally", tem história própria. Em 2022, dias após a invasão russa à Ucrânia, Bono e The Edge viajaram a Kiev para tocar em uma estação de metrô a convite do presidente Zelensky. Foi ali, naquela plataforma, que conheceram Taras Topolia, músico e soldado ucraniano, apresentado a Bono por Ed Sheeran. A amizade que nasceu naquele encontro gerou a canção, escrita em forma de carta de um soldado ativo com "um espírito audacioso e travesso, à altura do espírito da Ucrânia". A faixa é acompanhada por um curta-metragem de 4 minutos e meio dirigido pelo cineasta Ilya Mikhaylus, lançado em 24 de fevereiro — data que marca o quarto aniversário da invasão russa —, filmado nas linhas de frente do conflito em dezembro de 2025.
O EP também marca o retorno da revista "Propaganda", publicação oficial do U2 que completou 40 anos em fevereiro. Inspirada nos fanzines punk do "faça você mesmo", a edição especial de 52 páginas traz entrevistas com os envolvidos no projeto, letras das músicas e comentários dos quatro integrantes. Parte da renda será destinada à Anistia Internacional, ao Comitê para a Proteção dos Jornalistas e ao ACNUR. "Days Of Ash" chega, portanto, não apenas como disco — mas como ato político, carta aberta ao mundo e prova de que, aos mais de quatro décadas de carreira, o U2 ainda encontra nas feridas do presente a matéria-prima de sua música.
