'Como imaginar uma revolução que não seja protagonizada por bichos, inclusive o humano?'
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Rodrigo Fonseca Especial para o Correio da Manhã
N ove produções brasileiras, dos mais diferentes cantos do país, já estão confirmadas para a 76ª Berlinale, sem contar os anúncios desta terça-feira, quando serão divulgadas as narrativas concorrentes ao Urso de Ouro de 2026, que entram em disputa de 12 a 22 de fevereiro. Desse contingente de expressões do Brasil, há uma voz autoral que já pode ser dizer "de casa" no Festival de Berlim: o carioca Felipe M. Bragança. Aos 45 anos, o cineasta, que cresceu entre o Centro do Rio e a Baixada Fluminense, estará em solo alemão na seção Forum Expanded com "Floresta do Fim do Mundo", codirigido por Denilson Baniwa. Na trama Suely, indígena que vive numa grande cidade brasileira, passa os seus dias num apartamento. Em seus sonhos, ela se comunica com área florestal e se conecta aos segredos de um mundo em mudanças radicais.
Realizador de produções premiadas como "Um Animal Amarelo" (2020), o cineasta - sócio da diretora Marina Meliande na produtora Duas Mariola Filmes - desenvolve hoje, em codireção com Zahy Guajajara, o projeto "Makunaima XXI", que tem o arlequim francês Denis Lavant (de "Holy Motors") no elenco, também focado nas ancestralidades dos povos da selva - e no anti-herói de Mario de Andrade. Bragança hoje produz o primeiro longa de Leonardo Martinelli, chamado "Fantasma Neon", em referência ao curta que deu a esse jovem diretor o troféu de Locarno, na Suíça, em 2021, e uma penca de Kikitos em Gramado. Está envolvido ainda na concepção do próximo longa de Meliande, sua parceira em "A Alegria", exibido na Quinzena de Cannes de 2010.
A troca é a base da criação de Bragança, como explica Baniwa, seu parceiro na feitura de "Floresta do Fim do Mundo":
"Meu trabalho com o Felipe é profundamente colaborativo. Não existe uma hierarquia rígida; existe escuta, troca e risco compartilhado. Eu entro trazendo meu repertório visual, político e cosmológico, e ele traz a experiência cinematográfica, política, a estrutura narrativa e o desejo de experimentar a linguagem. O filme nasce desse encontro com vários alinhamentos muito intuitivos".
O prestígio de que Bragança desfruta em nossas telas ganhou solidez depois de sua vitória na seção Aurora da Mostra de Tiradentes, nas Minas Gerais, em 2009, com "A Fuga, a Raiva, a Dança, a Bunda, a Boca, a Calma, a Vida da Mulher Gorila". O título "A Fuga da Mulher Gorila" é mais usado ao se falar desse trabalho de Bragança e Meliande. Não por acaso, a dupla vai revisitar esse êxito na 29ª edição do evento mineiro na próxima segunda (26), às 18h. Antes, neste sábado, às 22h, eles exibem em Tiradentes o recente "Uma Baleia Pode Ser Dilacerada Como Uma Escola De Samba".
Na conversa a seguir, o cineasta revela ao Correio da Manhã as suas inquietações criativas.
De que maneira as duas imersões no universo indígena abrem novas hipóteses estéticas para o cinema que você busca desde "A Fuga da Mulher Gorila"?
Felipe M. Bragança: Acho que meu caminho no cinema sempre passou por um mergulho em identidades transitórias brasileiras, fronteiras e encruzilhadas culturais. Das andanças das jovens de "Mulher Gorila" até hoje, acho que há algo em comum que é a ideia de personagens e lugares que se constroem entre dois ou mais mundos, duas ou mais camadas de realidades. E tentam, nesse lugar transitório, encontrar suas vivacidades e suas vozes, mesmo que múltiplas. Essas duas (serão mais?) imersões em imaginários indígenas contemporâneos são também uma forma de me conectar com transitoriedades imagéticas, culturais e espirituais que também me formam e formaram meu olhar, desde minhas origens familiares até às novas escutas contemporâneas que vozes como a de Denilson Baniwa proporcionam.
Seu cinema sempre esteve atento à geografia urbana ao teu redor, de mata ou de concreto. De que maneira a ideia de "cidade" cruza a saga de Suely em "Floresta do Fim do Mundo"?
Felipe M. Bragança: Penso sempre as personagens e seus espaços, seus lugares, a partir dos elementos de pertencimento e de não-pertencimento que os cruzam, tentando encontrar as pulsões se enraizamento e de deriva que estão sempre em embate dentro deles e delas. Aqui, Suely é uma mulher que literalmente vive dois mundos, duas camadas de mundo, ao mesmo tempo, simultaneamente. O pertencimento e o não-pertencimento andam juntos em cada passo que Suely dá.
O que seria o "fim do mundo" nesse exercício e o quanto Denilson Baniwa serve de baliza para essas fronteiras?
Felipe M. Bragança: A ideia do filme surgiu de um sonho que Denilson me contou em uma conversa de bar e da filosofia do italiano Emanuele Coccia. Dessas conversas e das leituras de "A Vida das Plantas", mergulhamos nessa jornada de uma mulher que é ao mesmo tempo a protetora de nosso tempo e o arauto da destruição, que é ao mesmo tempo entidade e gesto cotidiano, ação e espera, raiva e doçura, pensando a ideia de uma revolução vegetal, de uma revolta das plantas, diante das dores do mundo. Como imaginar uma revolução que não seja protagonizada por bichos (incluindo o bicho humano)?
Sua obra audiovisual se fez notar na vitória na mostra Aurora, em Tiradentes, em 2009, e ganhou mundo via Locarno, da Quinzena de Cannes e de Roterdã. No périplo global do teu cinema, Berlim tem lugar de honra, pela recorrência. O que a Berlinale te abriu de conexões?
Felipe M. Bragança: De todos os festivais de cinema do mundo em que estive, a Berlinale talvez seja onde me sinto mais em casa, talvez por já ser minha quinta participação como diretor por lá. Além disso, morei em Berlim por dois anos, entre 2013 e 2015, a convite do DAAD, para uma residência de criação artística de onde saíram dois roteiros de longa: "Não Devore Meu Coração" (2017) e "Um Animal Amarelo" (2020). A Berlinale (ainda mais em sua seção Forum Expanded) é um lugar que tem me dado espaço para mostrar minhas pesquisas estéticas e temáticas mais arriscadas, meus estudos de cinema mais profundos.
Seus filmes - sobretudo a partir do longa coletivo de 2011, "Desassossego" - reagem a um certo marasmo do cinema ao se pensar como linguagem e como narrativa. O que você vê de mais forte no cinema brasileiro hoje? Qual foi o último filme nacional que te deixou sem ar?
Felipe M. Bragança: Quando fizemos "Desassossego", um filme coletivo com 18 diretoras e diretores, minha ideia, com Marina Meliande, era a de bater firme no chão com a ideia de que havia um forte e novo cinema contemporâneo brasileiro e que não poderíamos ser eternos viúvos do Cinema Novo. O filme estreou em Roterdã e nos ajudou naquele momento a dar voz a esse sentimento. Hoje, 15 anos depois, acredito que não seja mais essa a questão: é incontornável que o cinema contemporâneo brasileiro existe e é reconhecido internacionalmente. Talvez hoje o cerne da questão seja voltar a discutir profundamente as linguagens cinematográficas que estamos buscando construir e de que modos elas se conectam com o nosso tempo. Nesse sentido, o filme brasileiro recente que mais admirei foi "Cidade, Campo" da Juliana Rojas. Sou completamente fã do cinema da Juliana.
Em que pé anda o teu Macunaíma?
Felipe M. Bragança: "Makunaima XXI", como o chamamos, foi parcialmente filmado em junho de 2025. Estamos agora preparando uma segunda etapa de filmagens que inclui algumas viagens pelo Norte do Brasil e filmagens em estúdio no Rio de Janeiro. O filme terá também uma longa etapa de pós-produção entre Brasil e França, então podemos imaginar que ele venha ao mundo em algum momento de 2027.
