Desbravando o edifício musical-intelectual de Jorge Mautner

Show 'Doce Dioniso', de Qinhones, revisita obra do filósofo-compositor que misturou rock, samba e pensamento dionisíaco na MPB

Por Affonso Nunes

Jorge Mautner completa 85 anos em 17 de janeiro e recebe homenagem no show-tributo de Qinhones (abaixo)

Show 'Doce Dioniso', de Qinhones, revisita obra do filósofo-compositor que misturou rock, samba e pensamento dionisíaco na MPB

Estamos há poucos dias (dois na verdade) do aniversário de 85 anos de Jorge Mautner, um dos mais inquietos artistas brasileiros. E nesta quinta-feira (15), o cantor carioca Qinhones estreia "Doce Dioniso", tributo ao cantor, compositor e escritor, a partir das 21h, no Manouche, com participação especial da cantora e compositora Letrux.

O repertório do show reúne canções de Mautner eternizadas nas vozes de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Chico Science, como "Lágrimas Negras" e "Samba Jambo", além de pérolas menos conhecidas que circulam consagradas entre músicos e DJs mundo afora. O tributo idealizado por Qinhones não se limita à música: o espetáculo é entremeado por citações do pensamento mautneriano e de autores que o influenciaram, como o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), trazendo ao público uma amostra da fertilidade intelectual do homenageado. O título do tributo faz referência direta à adoração de Mautner por Dioniso, deus grego da música, da embriaguez e da sensualidade e recorrente no pensamento de Nietzche.

"O Mautner é um artista muito especial, e várias coisas dele me atraem. Mas primeiramente destaco a música, a grande obra dele, com canções incríveis. Muitas não que não se tornaram populares, e que são maravilhosas... E sempre com essa genialidade dele na escrita das letras, o que é muito marcante dele", comenta Qinhones. "E tem essa parte do Mautner filósofo, intelectual, sempre muito ligado nas filosofias orientais, e as misturava com as filosofias ocidentais de um jeito muito único, brasileiro. Ele tem uma frase dele que eu acho genial que é: 'é caos, é Zen'. Ele está sempre trazendo a referência ao Zen Budismo, ou ao próprio Buda, ou aos indianos e os chineses, japoneses", acrescenta o músico.

Divulgação - Qinhones

Mautner é um personagem ímpar na música brasileira. Nascido Henrique Jorge Mautner em 1941, no Rio de Janeiro, de pai austríaco e mãe iugoslava, o artista atravessou décadas construindo uma obra que desafia classificações fáceis. Passou ao largo do pop mainstream, emplacou hits alternativos e consagrou seu estilo em álbuns marcantes das décadas de 1970 e 1980. Sua trajetória artística sempre foi marcada pela recusa em se enquadrar: é simultaneamente intelectual, músico, escritor, performer e pensador iconoclasta.

Aos 21 anos, Mautner já demonstrava sua vocação múltipla ao receber o Prêmio Jabuti em sua estreia literária com "Deus da Chuva e da Morte", em 1962. Publicou ao longo da vida 12 livros que passam pela filosofia, pela autobiografia e por experimentações literárias. Mesmo com formação intelectual robusta - estudou Sociologia na USP - jamais se afastou da cultura popular brasileira. Pelo contrário: apaixonado pelas raízes culturais do país, Mautner produziu uma obra única, costurando o zen com o samba, o candomblé com o rock, o desbunde com análises políticas.

Na música, gravou 14 álbuns e sua parceria longeva foi com o compositor Nelson Jacobina com quem criou clássicos como "Lágrimas Negras" e "Samba Jambo". A poética mautneriana é afiada e altamente irônica, navegando entre o erudito e o malandro, entre a filosofia nietzschiana e a ginga dos morros cariocas. Versos como "Na frente do cortejo, o meu beijo / Muito forte como aço, meu abraço / São poços de petróleo a luz negra dos seus olhos / Lágrimas negras caem, saem, doem" exemplificam sua capacidade de fundir lirismo intenso com imagens visuais potentes. Em "Samba Jambo", a síntese da filosofia existencial do artista se faz com leveza: "Eu não ando, eu só sambo por aí / Esse samba jambo / Escorregando para não cair".

Repaginar essa obra significa trazer para a atualidade uma das vozes mais provocantes do chamado "pós-tropicalismo", período em que Mautner, mesmo sem integrar oficialmente o movimento tropicalista, dialogava intensamente com seus protagonistas. Caetano Veloso e Gilberto Gil gravaram diversas de suas composições, reconhecendo no amigo um visionário cujo trabalho antecipava rupturas estéticas e comportamentais.

No palco do Manouche, Qinhones se apresenta acompanhado por Bruno Di Lullo (baixo e direção musical), Rafael Rocha (bateria), Mafram do Maracanã (percussão) e Antonio Fischer-Band (teclados). "Vim ouvindo com mais cuidado a obra do Mautner nos últimos anos, e naturalmente fui me apegando mais algumas músicas e desenvolvendo uma relação de de paixão, de carinho, de deslumbramento... É difícil explicar o porquê, mas tem algumas músicas que mexem mais com a gente, né?", diz Qinhones, ao falar do repertório selecioando.

Aos 41 anos, Qinhones, antes conhecido como Qinho, consolidou-se como um dos artistas mais atuantes da cena independente carioca. Desenvolveu sua trajetória artística no Rio de Janeiro, lançou quatro álbuns autorais e criou projetos culturais diversos como o Festival Dia da Rua. Em quase 20 anos de carreira, participou de festivais como Back2Black, SWU, MECA e Rock The Mountain e já dividiu o palco com Luiz Melodia, Adriana Calcanhoto, Mart'nália, Fernanda Abreu, Paulinho Moska e Jards Macalé, entre outros.

SERVIÇO

QINHONES CANTA MAUTNER - DOCE DIONISIO

Manouche (Rua Jardim Botânico, 983)

15/1, às 21h

Ingressos: R$ 120 e R$ 60 (meia solidária com doação de 1kg de alimento não perecível ou livro para comunidades carentes)