RETROSPECTIVA 2025: Tesouros nacionais

Aquiles Rique Reis, nosso crítico musical, seleciona dez grandes álbuns lançados este ano. É brasil na veia!

Por Aquiles Rique Reis*

Aquiles Rique Reis, vocalista do MPB, escritor e crítico musical do #CM2

Aquiles Rique Reis, nosso crítico musical, seleciona dez grandes álbuns lançados este ano. É brasil na veia!

A música brasileira é, inegavelmente, a mais rica do mundo, com sua diversidade de ritmos e sotaques. É negra, branca e indígena. É cantada e instrumental. É do mainstream e independente. É rural e urbana. É ancestral, contemporânea e futurista. Apresento, abaixo, uma relação dos álbuns mais interessantes que resenhei para o #CM2 ao longo de 2025. Aproveitem!

Diculgação - Capa de 'Edu Pife', do Pife Muderno

Edu do Pife (Carlos Malta e Pife Muderno)

Carlos Malta e Pife Muderno celebram a obra de Edu Lobo em álbum que reúne pifes e percussão potente. Malta, encantado desde os sete anos com "Ponteio", criou arranjos refinados para treze músicas, com participações de Edu Lobo, Hermeto Pascoal, Matu Miranda e Jaques Morelenbaum. O repertório inclui "Zanzibar", "Água Verde", "Casa Forte" e parcerias com Chico Buarque, numa autêntica versão Brasil na veia que enriquece a obra arrebatadora de Edu Lobo.

Divulgação - Com que Roupa?, EP de Carlos Careqa

Com Que Roupa (Carlos Careqa)

EP que demole convenções ao reinterpretar Noel Rosa com ousadia anticonvencional. Carlos Careqa, influenciado por Chico Mello, une-se ao multi-instrumentista Marcio Nigro para criar versões originais de clássicos como "Com Que Roupa?", "João Ninguém", "Palpite Infeliz", "Três Apitos" e "Último Desejo". Com produção eletrônica, voz teatral e arranjos que mesclam tradição e experimentação, o trabalho renova a pureza de Noel com coragem e talento de um "desarrumador" irrequieto de convenções musicais.

Divulgação - Fantasia Brasil 2, de Rafael Beck e Felipr Montanaro

Fantasia Brasil 2 (Duo Rafael Beck e Felipe Montanaro)

Dois jovens multi-instrumentistas do interior paulista - Rafael Beck (24) nas flautas e Felipe Montanaro (19) no piano - apresentam segundo álbum repleto de criatividade. O repertório inclui Chico Buarque, Guilherme Arantes, Luiz Gonzaga e composição própria, com arranjos geniais que surpreendem a cada acorde. Os uníssonos, duos febris, busca por timbres e soluções harmônicas demonstram bom-gosto aguçado. Produção de Newton d'Ávila captura a alegria juvenil desses meninos que têm asas nas mãos.

Fotos/Reprodução - Sangria, álbum de Pedro Iaco

Sangria (Pedro Iaco)

Álbum audacioso com composições próprias de Pedro Iaco (exceto "Valsa do Apocalipse" com Emílio Terron). Arranjos de Elodie Bouny complementam delírios poéticos do cantautor, com participações do Ensemble SP, Hansi Kürsch e Marcus Siepen (Blind Guardian), André Mehmari, Mü Mbana e Coro Lírico. Destaque para instrumentações refinadas: cordas, harpa, cravo, vibrafone. O trabalho mostra evolução categórica de Iaco, com voz encantada e composições libertas que amalgamam música erudita e experimental baseada na popular, sem conflitos.

Divulgação - OLÓRI-AGBÁYÉ, album da banda Batucada Tamarindo


Olóri-Agbáyé (Batucada Tamarindo)

Primeiro álbum totalmente autoral da Batucada Tamarindo após vinte anos de atividade. Maracatus, tambores de mina e afrobeat encontram sintetizadores, violino, trompete, trombone em sonoridade que reafirma identidade afro-brasileira. Produção de Rodrigo Caçapa, com Dona Zezé, Dona Neta, Mãe Gê, Yalorisa Genilce d'Ògún e Víh Davice. Olóri-Agbáyé ("cabeças universo" em iorubá) transforma individualidades em coletividade potente. Oito faixas inéditas louvar ancestralidade musical com vigor, dignidade e força libertária contra tiranias e preconceitos.

Divulgação - Recado, EP de Paulo Bastos

Recado (Paulinho Bastos)

EP do multi-instrumentista macapaense Paulo Bastos celebra manifestações culturais da Amazônia amapaense. Marabaixos, zouks, batuques e maxixes expressam vivência ancestral das comunidades negras do Amapá. Participações de Oneide Bastos (mãe), Patrícia Bastos (irmã), Renato Brás, Marcelo Pretto, Sapopemba, Lucina Carvalho e Skipp. Repertório inclui "Ainda Índio", "Igarapé", "Pra Oca", "Doce Rainha", "Recado" e "Eu Vim do Mar". Projeto contemplado pelo Edital Rumos do Itaú Cultural é grito de alerta e convite para conhecer musicalidade amapaense com frescor e excelência.

Divulgação - álbum Afro-Brazilian Suite Ancestrality for Harp, Cello and Clarinet

Afro-Brazilian Suite Ancestrality for Harp, Cello and Clarinet (João Marcondes)

Álbum erudito do compositor João Marcondes aproxima música erudita das raízes ancestrais afro-indígenas brasileiras. Duas formações instrumentais: harpa (Sole Yaya), violoncelo (Marialbi Trisolio) com clarinete (Ovanir Buosi) ou violino (Leandro Dias). Nove peças incluem "Overture: The Ant's Intertwined Step", "Waltz: Golden Ancestry" e "Short Time". Troca timbrística entre clarinete e violino proporciona diferença formidável de sonoridade. Gravação no Estúdio Arsis demonstra que erudito e popular são complementares em requintes, contrastantes em acordes, plurais em harmonias. Trabalho admirável e arrebatador.

Divulgação - Enseada Perdida, álbum de Thiago Amud

Enseada Perdida (Thiago Amud)

Novo álbum do compositor, cantor e instrumentista Thiago Amud lançado em plataformas, CD e LP. Lado A traz "Baía de Janeiro" (samba exaltação enérgico), "Oração à Cobra Grande" (letra amazônida com atmosfera mântrica), "Se Você Pensasse" (arranjo estridante), "Cidade Possessa" (marcha circense com Chico Buarque, convite às ruas) e "Mapa-Múndi" (arranjo suave com piano de Marcelo Galter). Direção artística de Amud e Sylvio Fraga, arranjos de Amud, produção de Alê Siqueira. Trabalho demonstra riqueza de recursos, voz bela e profundeza musical que completa na superfície da escuta.

Divulgação - Samba do Trabalhador 20 Anos

Moacyr Luz e o Samba do Trabalhador - 20 Anos

Documento histórico celebra duas décadas do Samba do Trabalhador no Clube Renascença. Moacyr Luz, predecessor do samba como Noel Rosa, cria triunvirato insofismável ligando seu nome ao samba e trabalhadores. Álbum traz novas parcerias com Dunga, Pedro Luís e Xande de Pilares, clássicos interpretados por Mingo Silva, Gabriel Cavalcante e Alexandre Marmita. Composições inéditas incluem "Vai Clarear" (sobre saúde de Moa), "Caboclo Para-Raios", "Roda de Partido" e "Vou Tentando". Participações de Marina Íris, Joyce Moreno e Pedro Luís. Produção de Leandro Pereira.

Divulgação - Amizade, álbum de Áurea Martins e Cristóvão bastos

Amizade (Áurea Martins e Cristovão Bastos)

Encontro afetivo celebra décadas de parceria entre a cantora Áurea Martins e o pianista Cristovão Bastos. Repertório inclui "Vem Hoje" (Moacyr Silva/Antônio Maria), "Doce de Coco" (Jacob do Bandolim/Hermínio Bello), "Neste Mesmo Lugar" (Armando Cavalcanti/Klécius Caldas), "Todo o Sentimento" (Cristovão Bastos/Chico Buarque), "Outra Vez, Nunca Mais" e "Voz de Samba". Participações de Miguel Rabello e Gabriel Cavalcante. Direção musical e arranjos de Bastos. Álbum celebra voz rara de Áurea e genialidade pianística de Cristovão, criando atmosferas dilacerantes com distanciamento e afeto.

*Vocalista do MPB4 e escritor