RETROSPECTIVA 2025: A música brasileira continua linda
Gil faz a turnê de despedida dos palcos; show de Caetano e Bethânia atrai multidões; estrela de Liniker brilha forte e a nova geração chega com talento de sobra
Gil faz a turnê de despedida dos palcos; show de Caetano e Bethânia atrai multidões; estrela de Liniker brilha forte e a nova geração chega com talento de sobra
Com o fim de 2025 chegamos ao fim do primeiro quarto do século 21, um período que sinaliza mudanças de bastão na música popular brasileira. Ainda que os nomes mais emblemáticos de nossa canção popular ainda estejam em atividade é notório que uma nova e potente geração de cantores e compositores pode passagem. E o movimento mais forte nesse sentido foi dado talvez por um de nossos maiores arquitetos sonoros, Gilberto Gil que, aos 82 anos, empreendeu sua despedida dos grandes palcos com a turnê "Tempo Rei". Não, ele não está se aposentando: seguirá criando e se apresentando em espaços menores, mais intimistas e longe da pressão de uma temporada extensa de shows pelo mundo.
O show de encerramento, na Arena Fonte Nova, em Salvador, foi um espetáculo de alta tecnologia e profunda emoção, reunindo mais de 40 mil pessoas. O setlist, cuidadosamente curado, atravessou o Tropicalismo, o reggae, o samba e a música eletrônica orgânica que Gil explorou em décadas recentes. Momentos como a execução de "Drão" e "Cálice" levaram o público às lágrimas. A turnê também serviu para reafirmar a conexão de Gil com a nova geração, inclusive de sua família como o trio Os Gilsons - formado por filho e dois netos - e o despontar da neta Flor Gil. Tudo isso num ano em que o patriarca chorou a morte da filha Preta.
E se Gil representa anos gloriosos da MPB, a cantautora Liniker se firma no presente e futuro. Seu álbum "Caju", lançado no final de 2024, atingiu seu auge em 2025. É um manifesto musical que redefine sonoridades ao fundir ao agregar soul, o jazz e o samba à boa velha MPB com seu lirismo visceral. No Grammy Latino 2025, realizado em Las Vegas, Liniker fez história ao se tornar a brasileira mais premiada da noite. Ela conquistou três gramofones de ouro, incluindo as categorias de Melhor Álbum de Pop Contemporâneo em Língua Portuguesa e Melhor Canção em Língua Portuguesa por "Veludo Marrom". O impacto de "Caju" foi tão grande que a versão em vinil duplo tornou-se o item de colecionador mais desejado do ano, com tiragens esgotadas em minutos. A artista mostrou na prática que a nova MPB pode ser sofisticada, popular e politicamente relevante, tudo ao mesmo tempo.
Voltando aos medalhões, outro marco que reverberou (e muito) neste 2025 foi a turnê conjunta de Caetano Veloso e Maria Bethânia, o maior evento de bilheteria da história da música brasileira recente. Os irmãos percorreram estádios por todo o país, provando que a MPB clássica ainda possui um apelo de massa capaz de rivalizar com o pop internacional. A harmonia vocal impecável e a capacidade de renovação de clássicos como "Reconvexo" e "O Leãozinho" mostraram que o vigor artístico de Caetano e Bethânia segue intacto.
O Grammy Latino 2025 também serviu para destacar a diversidade de gêneros que compõem a identidade musical do Brasil. Luedji Luna, com o álbum "Um Mar Pra Cada Um", venceu na categoria de Melhor Álbum de Música Popular Brasileira, consolidando sua posição como uma das vozes mais potentes da música afrobrasileira. No campo das raízes, o trio formado por João Gomes, Mestrinho e Jota.pê conquistou o prêmio com o álbum "Dominguinho", um tributo emocionante que uniu o piseiro moderno à tradição do acordeom.
O samba e o pagode também tiveram seu momento de glória com a vitória do Sorriso Maroto, que homenageou o grupo Fundo de Quintal, enquanto o BaianaSystem levou o prêmio de Melhor Álbum de Rock ou Música Alternativa com "O Mundo Dá Voltas", reafirmando sua capacidade de fundir a guitarra baiana com ritmos globais.
O cenário musical de 2025 também foi marcado pela consolidação definitiva do "Pop-MPB", um subgênero que une a sofisticação harmônica da música brasileira tradicional com a estética visual e o alcance do pop global. O maior expoente desse movimento foi Jão e sua "Superturnê" que lotou estádios com uma produção que remete aos grandes shows internacionais, Jão provou que é possível manter a essência da canção popular num espetáculo de entretenimento de alto nível. Paralelamente, o pagode reafirmou sua posição como um dos pilares centrais da música popular. O projeto "Numanice", de Ludmilla, atingiu patamares inéditos de faturamento, influenciando toda uma nova safra de artistas que buscam no samba e no pagode a sua identidade.
Os festivais em 2025 serviram como os grandes termômetros da indústria. O The Town, em São Paulo, e o Rock in Rio mantiveram espaços generosos para a MPB, promovendo encontros inéditos entre gerações. Além dos gigantes, festivais de médio porte como o Coala Festival e o Festival Novas Frequências focaram na experimentação, trazendo nomes como Silva e Marina Sena, que continuam a expandir as fronteiras do que entendemos por música popular.
A vitalidade da cena independente também deve muito à plena execução das leis Paulo Gustavo e Aldir Blanc 2, que permitiram que artistas de regiões fora do eixo Rio-São Paulo pudessem gravar seus álbuns e realizar turnês. Vimos uma explosão de talentos vindos do Norte e Nordeste, como a consolidação de Melly, da Bahia, e a ascensão de novas bandas de Belém do Pará, que trouxeram o tecnobrega e a guitarrada para o centro da discussão estética nacional. E nos centros urbanos temos nomes interessantes como Chico, Chico, Dora Morelenbaum, Theo Bial, Juliana Linhares...
A cena instrumental também merece ser lembrada, a começar pela ascensão global de músicos como os pianistas Amaro Freitas e Jonathan Ferr. O violão virtuoso de Yamandu Costa segue como um poderoso embaixador de nossas sonoridades como na turnê em conjunto com o cantor portugês António Zambujo, que encantou plateias aqui e no exterior.
O vigor da cena instrumental também foi impulsionado por um circuito de festivais pulsante, como o MIMO, o Savassi Festival e o Festival Assad, que abriram espaço para inovações como o jazz-funk periférico do trombonista Josiel Konrad e o virtuosismo melódico do Cristian Sperandir Trio.
A rapper Duquesa elevou o nível do hip-hop nacional com o projeto "Taurus", apresentando rimas afiadas e uma estética visual poderosa. Essa safra de artistas, que inclui ainda nomes como Ajuliacosta e Bebé que ocupam posições de destaque nas paradas de streaming e lideram um movimento afrofuturista no qual a ancestralidade é celebrada através de produções eletrônicas de vanguarda.
O panteão da música brasileira sofreu golpes duríssimos em 2025, com a partida de figuras emblamáticas. A perda de Hermeto Pascoal, em setembro, aos 89 anos, silenciou o "Bruxo" da música universal, cujo gênio transformava qualquer objeto em som e cuja liberdade criativa servia de norte para instrumentistas de todo o planeta. Pouco depois, em novembro, o Brasil despediu-se de Jards Macalé, aos 82 anos, o eterno "maldito" da MPB que, com sua mistura de deboche, sofisticação e violão cortante, foi um dos maiores arquitetos da vanguarda nacional. Somam-se a eles a partida de Lô Borges, também em novembro, encerrando um capítulo fundamental da harmonia mineira do Clube da Esquina, e a de Arlindo Cruz, cujas rimas perfeitas deixaram legado inconstestável no mundo do samba. O falecimento de Nana Caymmi, em maio, retirou de cena a voz mais dramática e densa da canção brasileira, enquanto a morte de Preta Gil, em julho, comoveu o país pela perda de uma artista que simbolizava a alegria e a luta contra todas as forma de preconceito.
Saudosos sim, mas eternos com suas obras.
O ecossistema musical vibra mais do que nunca, pois a maior riqueza do Brasil está nas suas vozes.
