Morre, aos 82, Jards Macalé, o artista que nunca coube em nenhuma caixa

Cantor e compositor não resiste a um infarto de decorrente de insuficiência renal, mas acordou cantando após despertar de uma cirurgia

Por Affonso Nunes

Embora não seguisse os padrões do mercado fonográfico, Jards Macalé criou grandes sucessos da MPB

Cantor e compositor não resiste a um infarto de decorrente de insuficiência renal, mas acordou cantando após despertar de uma cirurgia


Anjos tortos também batem asas no céu. A música brasileira perdeu nesta segunda-feira (17) um de seus artistas mais inclassificáveis. Jards Macalé faleceu aos 82 anos no hospital da Unimed da Barra da Tijuca,  vítima de parada cardíaca decorrente de infecção generalizada e insuficiência renal. Antes de partir, o cantor e compositor esbanjava sua famosa irreverência ao acordar de uma cirurgia cantando "Meu Nome é Gal", com toda a energia e bom humor que dele se espera.

A lacuna que Jards deixa na MPB é imensa. Foram seis décadas de uma trajetória marcada pela recusa sistemática aos rótulos e pelo gosto visceral pela liberdade criativa. O carioca nascido na Tijuca como Jards Anet da Silva construiu uma obra que nunca se dobrou aos modismos ou às convenções do mercado fonográfico, tornou-se um dos pilares mais sólidos e resistentes da moderna música brasileira justamente por sua recusa em pertencer a uma corrente musical. Pluraridade sempre.

A relação de Macalé com a música sempre foi de uma intimidade quase física. Criado entre Copacabana e Ipanema, frequentador das mesas da Churrascaria Pirajá e do restaurante La Fiorentina, teve com Nara Leão (1942-1989) uma afinidade imediata quando a cantora decidiu romper com o lirismo descompromissado da bossa nova para unir a sofisticação de Ipanema à aspereza dos morros cariocas. Foi ao lado dela, tocando violão em shows no clube Caiçaras, que Macalé começou a desenhar sua linguagem própria, uma música que nunca se contentaria em ser apenas bela ou apenas engajada, mas que buscaria um terceiro caminho, tortuoso, magnético e absolutamente inquieto.

Como observou Fred Coelho no ensaio biográfico "Eu Só Faço o que Quero", o artista andou em diversos grupos ao longo da carreira, mas nunca fez parte deles de fato, preocupado em fundar sua própria linguagem artística. Na era dos festivais, quando todos buscavam o verso perfeito e a melodia que emocionasse as plateias, Macalé permaneceu ligado à poética viniciana, deslocado. Nos anos 1970, tornou-se um dos agentes do processo de eletrificação da música brasileira, adquirindo a face mórbida e romântica que marcaria sucessos como "Só Morto" e "Hotel das Estrelas". Embora nunca se considerasse tropicalista, colaborou de maneira definitiva com o movimento e seus integrantes, tornando-se um autor  essencial para a carreira de Gal Costa (1945-2022) quando Caetano Veloso e Gilberto Gil estavam exilados em Londres.

Foi para Gal que Macalé produziu o álbum "Legal" e compôs joias como "Mal Secreto" e "Vapor Barato", esta última em parceria com o poeta Waly Salomão (1943-2003), transformada em hino da contracultura brazuca e uma das principais músicas do repertório da cantora.

Reprodução - Caetano, Jards Macalé (de boné) e banda durante o período de gravação do mítico álbum 'Transa' (1972)

Mas o encontro mais decisivo aconteceu em 1971, durante o Carnaval em Salvador, quando Maria Bethânia avisou que Caetano ligaria de Londres. Veio então a convocação para reunir uma banda, embarcar para a capital inglesa e assumir a direção musical de "Transa", um dos discos mais cultuados da MPB. É Macalé quem toca o violão na abertura de "Nine Out of Ten", e foi em Portobello Road que ele descobriu o reggae, aprendendo a batida com um jamaicano em uma troca que ele descreveria com seu humor característico: "O cara disse 'te ensino a batida do reggae se você me ensinar a do samba'. Aí aprendi aquela célula. Ensinei a do samba, e ele ficou lá tentando. Acho que está tentando até hoje", contava, entre risadas.

De volta ao Brasil, Macalé gravou seu disco mais importante, o autointitulado de 1972, lançado no período mais repressivo da ditadura militar. Ali estava toda sua potência criativa: versos como "não me calo", "já comi muito da farinha do desprezo" e "também posso chorar" soavam como manifestos de resistência poética. Com José Carlos Capinam, compôs "Gotham City", incorporando a linguagem dos quadrinhos ao imaginário sombrio da repressão. A figura do morcego e a descrição de uma metrópole acinzentada eram críticas diretas ao regime militar, mas feitas com uma sofisticação que passavem ao largo do tom panfletário.

"Sem Macalé não haveria 'Transa'. Estou chorando porque ele morreu hoje. Foi meu primeiro amigo carioca da música", lamentou Caetano em suas redes sociais. O baiano relembrou o encantamento inicial, quando foi levado à casa de Macalé e o ouviu tocar violão, e celebrou a essência do "ipanemense amado" que seguiu na música até o fim. Maria Bethânia também lamentou nas redes sociais: "Meu amor, meu amigo... Fará muita falta neste mundo".

Macalé nunca aceitou o rótulo de artista "maldito", que a mídia tentava lhe imputar. Preferia ser reconhecido como "Anjo Torto", figura que aparece em "Let's Play That" e faz referência ao poema de Carlos Drummond de Andrade. Assim como o anjo drummondiano, ele foi um ser desajustado, mas que, pura ironia, ocupou posição de destaque na MPB. Sua trajetória múltipla incluiu cinema, televisão, teatro e artes plásticas, trabalhando com nomes como Nelson Pereira dos Santos, Lygia Clark e Hélio Oiticica. O documentário "Macaléia" (2023), de Rejane Zilles (sua mulher), registra justamente essa relação experimental entre esses dois artistas anárquicos, com obras experimentais e inovadoras, nos anos 1970, quando Hélio criou a Macaléia uma obra penetrável em homenagem ao amigo.

Andrea Nestrea/Divulgação - Jards Macalé em cena do documentário 'Macaléia' (2013), que aborda sua parceria artística com Hélio Oiticica

Nos últimos anos, Macalé seguiu politicamente engajado. Em "Besta Fera" (2019), retratou o governo Bolsonaro como período de trevas. Depois, com "Coração Bifurcado" (2023), com participações de Maria Bethânia e Ná Ozzetti, retomou o amor como gesto político: "Diante do cenário de genocídio emocional, estava na hora de retomar o amor que eu tenho para dar". Uma das últimas aparições foi no festival Doce Maravilha, em setembro, quando levou jovens de roupas coloridas à emoção apresentando as canções do disco de 1972. Morreu como viveu: cantando, insubmisso, livre. Deixa um legado fora de qualquer caixa.

Leo Aversa/Divulgação - Jards Macalé em imagem de divulgação ao álbum 'Coração Bifurcado', uma celebração à revolução dos afetois em tempos difíceis