Por Lucas Brêda (Folhapress)
Há 30 anos, quando Fred Zero Quatro escreveu o manifesto "Caranguejos com Cérebro", o Recife vivia uma situação parecida com a atual. "O momento voltou a ser de uma deterioração do tecido social", diz o vocalista do Mundo Livre S/A. "Na época a gente se assustava com a história de ser a quarta pior cidade do mundo, mas hoje é muito pior - a quantidade de gente na rua, famílias pedindo o que sobrou do osso."
O texto condensava as intenções de uma juventude periférica e inquieta que anos depois ficaria conhecida através do movimento manguebeat. Puxada pelo sucesso da Nação Zumbi, aquela expressão musical ganhou força nacional e internacional quebrando barreiras estéticas a partir de um símbolo - uma antena parabólica enfiada na lama.
Neste ano, o manguebeat chega a três décadas de existência, tomando como marco o manifesto gestado por Zero Quatro com Chico Science e o jornalista Renato L -espécie de núcleo pensante do movimento- e depois publicado no encarte do primeiro álbum da Nação Zumbi, o clássico "Da Lama ao Caos", de 1994.
A data é celebrada com o documentário "Manguebit", de Jura Capela, e a apresentação "Manguefonia", que reúne expoentes da cena mangue e Louise França, filha de Science, que já rodou o Brasil e passa por Recife, em dezembro, e Florianópolis, em janeiro. Outras datas devem ser anunciadas.
Segundo Zero Quatro, o manguebeat transformou a precariedade de recursos e o provincianismo com criatividade. "Nos primeiros shows que vi da Nação, eu sabia que a guitarra de Lúcio [Maia] era de quinta mão", diz. "A guitarra que a gente usava fui eu mesmo quem botei os trastes - e era cheia de buraco. Era explorar a própria precariedade e compensar isso com inventividade e espírito de cooperação."
Jorge du Peixe, ex-percussionista e vocalista da Nação Zumbi desde a morte de Science, em 1997, recorda que, no primeiro show da banda, quem tocou os tambores não tinha nem sequer participado dos ensaios. "Isso era porque quem tinha ensaiado não tinha passagem para ir ao show."
Os tambores inspirados no maracatu misturados com as guitarras distorcidas e um jeito de cantar inserindo "hip-hop na minha embolada", como dizia Science, marcaram a sonoridade da banda mais famosa do movimento. Mas os artistas do manguebeat não seguiam uma cartilha, e o objetivo era misturar as influências que vinham do exterior, captadas pelas antenas, e as locais, que já estavam no DNA - a lama.
Zero Quatro trazia o cavaquinho, o samba e a influência de Jorge Ben Jor com a percussão de Otto no Mundo Livre S/A, enquanto Cannibal falava da periferia do Recife no Devotos, uma banda de punk e hardcore.
Siba, com o Mestre Ambrósio, dava uma roupagem pop a ritmos populares como a embolada, a ciranda e o folguedo cavalo-marinho, enquanto Fábio Trummer, à frente do Eddie, inseria frevo e influências da música jamaicana numa banda de rock.
"Era uma ideia de quebrar monolitos. Não existia um formato só. Não era um gênero mangue. Pelo contrário, era um grito, dentro de tudo que a cidade oferecia musicalmente. A gente abraçava os folguedos também, mas ninguém tinha obrigação de tocar o maracatu. As bandas pegavam naturalmente", diz Du Peixe. "Claro que o maracatu ascendeu depois disso. Era uma cultura que estava quase indo pelo ralo, sem apoio do poder público."
Despreparo
O experimentalismo era a tônica nesse caldeirão de criatividade. Tanto que Nação Zumbi e Mundo Livre S/A, os primeiros representantes da cena mangue que conseguiram contratos para lançar álbuns por gravadoras no Sudeste, encontraram produtores que não estavam prontos para gravar aquela música.
"O [Carlos Eduardo] Miranda, por exemplo, nunca tinha gravado um cavaquinho. Aí chamou uns amigos, um pessoal do samba, para conferir se a afinação estava certa ou não", diz Zero Quatro, sobre o produtor de "Samba Esquema Noise", álbum de estreia do Mundo Livre S/A, de 1994. O disco foi lançado pelo selo Banguela, um braço da Warner comandado pelos integrantes dos Titãs.
Naquele mesmo ano, a Nação Zumbi lançou "Da Lama ao Caos" pela Sony. "O [produtor] Liminha nunca tinha se deparado com um tambor", diz Du Peixe. "Não tinha prato a bateria, era mais tambor e caixa. Isso causou um estranhamento. Até microfonar os tambores era complicado."
Quando esses álbuns foram lançados, Zero Quatro se lembra que os comentários nos bastidores eram de que os DJs e as rádios de rock não tocariam essas músicas porque eram do Nordeste.
"Para eles, era música regional. Achei surreal aquilo", diz. "Em contrapartida, mesmo não sendo digeridos num primeiro momento, depois tocamos no templo punk, o CBGB's [em Nova York]", diz Du Peixe.
O vocalista do Mundo Livre S/A também aponta como os tambores acabaram depois influenciando o heavy metal. "Engraçado que, poucos anos depois, você vê uma banda como o Sepultura que declaradamente incorpora essa linguagem de tambores no disco e nos shows, assumidamente uma referência do manguebeat", ele diz.