Eva Klabin por Eva Klabin

Casa museu abre acervo da colecionadora e revela que, para ela, o ato de vestir-se era um gesto artístico

Por Affonso Nunes

As irmãs Eva e Ema Klabin em viagem de cruzeiro pelo Mediterrâneo, em 1973

Casa museu abre acervo da colecionadora e revela que, para ela, o ato de vestir-se era um gesto artístico

A Casa Museu Eva Klabin abre suas portas neste sábado (31) para uma exposição que revira gavetas, armários e baús pela primeira vez. "Beleza Habitada: Eva Klabin, Moda e Memórias" apresenta ao público mais de 130 peças do guarda-roupa pessoal da colecionadora - vestidos, sapatos, chapéus, luvas -, além de cartas, convites, menus de jantares, listas de convidados e registros sonoros de amigos e familiares. O conjunto, que permanece em cartaz até 24 de maio, sugere que a moda, para Eva, não era acessório da vida, mas parte estruturante de uma experiência estética cotidiana.

Eva Klabin colecionou arte ao longo de quatro décadas. Adquiriu peças que atravessam o Antigo Egito e chegam à modernidade do século XX. Seu acervo permanente reúne obras de diferentes geografias e linguagens. Mas a colecionadora também vestia Chanel, Christian Dior, Pierre Cardin e, sobretudo, Zulnie David, modista carioca responsável por grande parte de suas roupas entre as décadas de 1940 e 1980.

Mario Grisolli/Divulgação - Conjunto Christian Dior, anos 1960

A exposição, com curadoria de Helena Severo e Brunno Almeida Maia e expografia de Leandro Leão, coloca essas duas dimensões lado a lado. "Eva Klabin habitou a beleza como quem constrói um mundo. Entre coleções de arte, vestidos e outros objetos, sua casa tornou-se cenário de encontros, onde o viver cotidiano se elevou à experiência estética", afirma Helena Severo.

Mario Grisolli/Divulgação - Sapato Chanel do acervo de Eva Klabin

A proposta curatorial organiza o percurso em cinco eixos que atravessam os ambientes da residência na zona sul carioca. O primeiro, "Afinidades sensíveis", articula a herança modernista do século XX e apresenta a coleção como uma constelação de formas, materiais e cores. Obras de Frans Krajcberg, Lasar Segall, Carlos Scliar, Paulo Roberto Leal e Emanoel Araújo dialogam com vestimentas, louças e mobiliário, sugerindo que a moda integrava, para Eva, o mesmo campo estético das artes visuais. Já "Modos de existir: Eva Klabin e o seu tempo" recria episódios da vida social da colecionadora, como o jantar oferecido ao banqueiro David Rockefeller na década de 1970, com ambiência concebida por Roberto Burle Marx. O núcleo traz documentos, pratarias e arranjos que reconstituem não apenas o evento, mas o cotidiano de uma mulher que fez da casa um espaço de encontros e diplomacia cultural.

O terceiro eixo, "Modos de colecionar", percorre a trajetória de Eva desde as primeiras aquisições realizadas em 1947, com Pietro Maria Bardi, até as últimas peças adquiridas antes de sua morte. A coleção de indumentárias aparece aqui como parte do mesmo gesto colecionador, afirmando um guarda-roupa vívido e coerente. "A singularidade do acervo de indumentária reside na capacidade que Eva possuía de conjugar criações da modista Zulnie David com nomes da moda parisiense, revelando um espírito de colecionadora e a construção de uma individualidade própria em diálogo com a história da moda de seu tempo", considera Brunno Almeida Maia.

Em "A linguagem secreta dos objetos", o foco recai sobre fragmentos da cultura material que expressam memória e subjetividade. Chapéus de Rose Valois e Gilbert Orcel, sapatos de Salvatore Ferragamo e Charles Jourdan, cadernetas, diários e correspondências revelam gestos e hábitos de Eva. O quinto eixo, "O visível, o invisível: a moda como arte", dedica-se especialmente à produção de Zulnie David. Ao colocá-la em diálogo com a alta-costura internacional, a exposição propõe uma revisão crítica da história da moda no Brasil, problematizando processos de visibilidade e apagamento histórico.

A expografia de Leandro Leão veste os ambientes da casa-museu com 570 metros de tecido branco ou transparente. As cortinas desenham um percurso, ordenam fluxos, servem de suporte para projeções e textos curatoriais e, como fundos neutros, destacam peças do acervo. "Elas desenham uma nova camada que dialoga com o espaço sem o descaracterizar", explica o arquiteto. A identidade visual parte da geometria singular da fachada para criar uma tipografia batizada de "Eva", centro de todos os elementos gráficos.

Acervo Casa Eva Klabin - Retrato de Eva Klabin datado de 1930

Para Camilla Rocha Campos, diretora artística da Casa Museu Eva Klabin, a exposição traduz as diretrizes que orientam a instituição hoje: "pensar a casa como espaço vivo, o acervo como experiência e a cultura como campo de encontro. A exposição reafirma Eva Klabin como uma mulher que compreendia a arte, a moda e os objetos do cotidiano como dimensões inseparáveis do viver".

SERVIÇO

BELEZA HABITADA: EVA KLABIN: MODA E MEMÓRIAS

Casa Museu Eva Klabin (Av. Epitácio Pessoa, 2480, Lagoa)

e 31/1 a 24/5, de quarta a domingo (14h às 18h)

Entrada franca