☰
✕

A voz negra dos palcos

Pallas publica pela primeira vez seis peças de Ubirajara Fidalgo, pioneiro da dramaturgia negra no país

Por

Affonso Nunes

Quatro décadas depois da morte precoce de Ubirajara Fidalgo (1949-1986), aos 37 anos, parte da obra do dramaturgo, ator, encenador, professor e produtor cultural chega às livrarias. A Pallas Editora lança a Coleção Ubirajara Fidalgo, projeto em três volumes que recupera seis peças escritas pelo maranhense fundador do Teatro Profissional do Negro (Tepron) e que permaneceram inéditas em livro, embora tenham posto no palco questões que seguem no centro do debate brasileiro: racismo, desigualdade social, embranquecimento, sexualidade, homofobia, misoginia, educação e as possibilidades de ascensão da população negra.

O que mais impressiona na leitura de hoje, diz a diretora de cinema e roteirista Sabrina Fidalgo, única filha do dramaturgo, é a permanência dessas questões. "Há cerca de cinquenta anos, Ubirajara já estava escrevendo sobre temas que continuam no centro das discussões contemporâneas, muitas vezes com uma frontalidade e uma complexidade muito impressionantes. Isso revela o quanto ele estava atento às estruturas profundas da sociedade brasileira e o quanto sua dramaturgia era avançada para o seu tempo", afirma.

Uma dramaturgia, frisa Sabrina, que recusava personagens reduzidos a tipos. "A questão racial é absolutamente estruturante na obra e na trajetória dele, mas a dramaturgia do Ubirajara também atravessa classe, desejo, sexualidade, masculinidade, educação, mobilidade social, violência, poder e relações humanas de maneira muito sofisticada", pontua.

O que os personagens negros reivindicavam, no palco, era aquilo que o autor chamava de "papéis de cidadãos", em oposição aos lugares restritos à escravidão, ao folclore ou à marginalidade — e, dentro dessa humanidade disputada, eles desejam, erram, reproduzem preconceitos, disputam poder e convivem com as próprias contradições.

Nascido em 1949 no povoado de São Pedro (MA), Ubirajara passou a viver em Caxias aos seis anos e começou ainda adolescente a estudar e fazer teatro. Em São Luís, foi aluno do jornalista e teatrólogo Jesus Chediak (1941-2020), que o incentivou a seguir carreira no Rio. Mudou-se em 1968, instalou-se na Lapa, estudou na Escola de Ballet do Theatro Municipal e integrou o seu corpo de baile enquanto construía a carreira como ator.

A experiência logo revelou um limite que ele recusava frontalmente: os papéis estereotipados reservados aos artistas negros. Em 1973, ao lado da companheira Alzira Fidalgo (1949-2011), criou o Tepron, primeira companhia teatral negra do estado do Rio de Janeiro e segunda do país. Mais do que uma companhia, o Tepron foi concebido como projeto artístico, pedagógico e político, voltado à profissionalização de artistas negros — pelas suas montagens passaram centenas de atores e atrizes, muitos vindos das periferias cariocas.

Ao fim das apresentações, Ubirajara promovia debates com a plateia sobre relações raciais, transformando o teatro em espaço de discussão pública em plena ditadura militar. Em 1975, participou da fundação do Instituto de Pesquisas das Culturas Negras (IPCN), onde foi diretor cultural, e mais tarde integrou a fundação da Associação Cultural de Apoio às Artes Negras (Acaan), da qual foi o primeiro presidente.

A tensão entre identidade negra e desejo de embranquecimento atravessa mais de uma das peças recuperadas. Em "Desfuga", o empresário Zé Baiano, homem negro que conheceu a pobreza e alcançou alguma ascensão social, insiste em diferenciar-se dos negros de pele mais escura e transforma o casamento com uma mulher branca em parte desse projeto de distanciamento da própria origem.

O personagem reaparece em "Fala pra eles, Elisabeth", adaptação e ampliação do monólogo original que multiplica personagens e situações, distribuindo racismo, relações de trabalho, violência, masculinidade e mobilidade social por todo o tecido social — com humor e linguagem popular.

Em "Buscando o infinito", monólogo-manifesto escrito em 1977, a experiência afro-brasileira é percorrida poeticamente, do cativeiro e do banzo às violências políticas do Brasil, até projetar a afirmação da identidade, da cultura e da vida negra.

"Tuti" aposta noutra narrativa: uma prostituta negra carioca que não sabe ler, encanta-se diante dos livros empilhados no quarto de Demóstenes, professor negro de literatura, e propõe uma negociação inesperada — quer que ele lhe ensine literatura. O encontro permite a Ubirajara aproximar alfabetização, desejo, sexo, pobreza, conhecimento e as possibilidades de transformação oferecidas ou negadas a uma mulher negra.

Em "Bamba's son", a ascensão social se cruza de novo com o embranquecimento: o homem negro que procura mulheres negras para o prazer e transforma a mulher branca em sinal de prestígio diante da sociedade. Já "A boneca da Lapa", de 1975, foca em personagens submetidos simultaneamente à pobreza, ao racismo e à violência contra pessoas LGBT, construindo uma figura que confronta a masculinidade dos homens ao redor e expõe as relações entre desejo, preconceito e violência.

Para Sabrina, toda essa atualidade faz da obra algo mais do que registro histórico. "Essa é uma das grandes forças dessas peças: elas não funcionam apenas como documentos de uma época. Elas seguem interrogando o presente. E isso diz muito sobre a potência da dramaturgia dele", diz a cineasta. Ubirajara escreveu mais de uma dezena de peças antes de morrer, em 1986, interrompendo uma trajetória que já somava dramaturgia, atuação, direção e formação de artistas. Sua obra dramática completa está disponível para consulta no Instituto Moreira Salles, que adquiriu o acervo da família em janeiro de 2024 e cedeu à Pallas os textos dos três volumes.

O processo de recuperação dos textos trouxe uma nova dimensão da obra do pai para a filha. "O que esse processo me permitiu foi redimensionar a importância da obra de Ubirajara Fidalgo. Ao reler esses textos hoje, também a partir da minha própria trajetória como artista, consigo perceber com ainda mais clareza a sofisticação do pensamento dele, a radicalidade das questões que colocava em cena e a dimensão política e estética do seu trabalho."