Há quase 70 anos, a solidão em Macondo
Leitor é aquele ser que reconhece na vida real momentos literários. Esta semana, por alguns instantes, o Rio virou Macondo, com a revoada dos bichinhos de luz. É fim de inverno, mas nesses trópicos de estações pouco marcadas, tudo se embola devido ao aquecimento global - renegado por uns, preocupante para todos os seres racionais que admiram a cidadezinha criada pelo colombiano Gabriel García Marquez para representar sua terra natal, Aracataca, hoje ponto turístico graças à criação de seu filho mais notável.
Descobri aquele universo quando, madura adolescente, na primeira madrugada de insônia da vida, devorei "Cem anos de solidão" com a voracidade das formigas de Macondo. No dia seguinte, dormi em todas as aulas na faculdade.
Passaram-se uns 45 anos até eu voltar às ruas de terra do lugarejo fundado pelos Buendia. Temia que a série da Netflix apagasse as imagens que eu criara para o romance que me levou à leitura de quase tudo o que Gabo escreveu. Ao contrário, contribuíram para aprimorar o cenário daquela saga familiar e do povoado praticamente esquecido pelos governantes até a chegada da United Fruit Company, a multinacional norte-americana que explorou plantações de banana na Colômbia e em outras nações latino-americanas, e, paralelamente, à Guerra dos Mil Dias, o embate civil, entre 1899 e 1902, no qual morreram cerca de 100 mil pessoas e o país perdeu a região do Panamá.
Os episódios históricos que compõem o pano de fundo de "Cem anos de solidão" jamais se sobressaem à singularidade dos Buendia e de seus agregados. São personagens multifacetados, cuja bondade se alicerça na crueldade exigida para a sobrevivência em tempos difíceis. O tímido e romântico Aureliano Buendia se torna o temido coronel, que enfrenta um pelotão de fuzilamento na abertura do romance. De início, o povoado resiste à opressão da fé católica, embora o misticismo esteja totalmente integrado à realidade dos habitantes de Macondo, que abraçam o sobrenatural com a tranquilidade sincrética dos latino-americanos.
O reencontro com Aurelianos, Arcádios, Remédios, Úrsulas e Amarantas, entre tantos, continua encantador. García Marquez era um mago, alquimista das palavras, de uma sonoridade colorida que lembra os tons de Jorge Amado, aqueles títulos exuberantes, poéticos, chicleteados na mente. Tudo pincelado por assombrações, longos períodos de chuva ou de insônia entre os moradores, maldades, canalhices, gente que sobe aos céus em vez de morrer, faz revolução, reclama das condições de trabalho com a United Fruit Company e arruma sempre tempo para se acabar de paixão. A cada revoada de mariposas com o calor ou a temporada de chuva incessante - que, felizmente, não chega a quatro anos quatro anos, onze meses e dois dias -, tão comuns nos trópicos, não há como deixar de pensar em Macondo.
Em maio de 2027, "100 anos de solidão" completa 60 anos de publicação, que devem ser celebrados com novas edições, lembrando que o livro impulsionou, na década de 1960, o boom da literatura latino-americana mundo afora, capitaneada por Gabo, pelo peruano Mario Vargas Llosa, o argentino Julio Cortázar e o mexicano Carlos Fuentes. Hoje, é possível encontrar o texto por preços variados, entre R$ 50 (em sebos) e até R$ 180, os volumes fartamente ilustrados, geralmente com desenhos representando a árvore genealógica das sete gerações de Buendia. Assim atendem à maior reclamação de quem não consegue se entender com a repetição dos nomes dos personagens - um hábito arraigado nas famílias latinas - e também à crítica mais rasa que um clássico da literatura pode receber.