Se não entendeu, ele desenha
Jornalista e escritor Marco Antônio Barbosa lança o e-book 'Polarização para Dumnies', um guia rápido e divertido para explicar as forças em disputa no tabuleiro político brasileiro
Affonso Nunes
Estamos em ano de eleições presidenciais e, mais uma vez, a sociedade brasileira de vê diante de um quadro de polarização política. Mas o que de fato é essa polarização, como surgiu e qual sua dinâmica? Inspirado numa consgrada série editorial, o jornalista e escritor Marco Antonio Barbosa acaba de lançar o e-book "Polarização para Dummies", um guia eletrônico que se propõe a explicar, conforme as palavras do autor, "tintim por tintim, como se cultiva a polarização ideológica no Brasil dos dias atuais".
Utilizando uma abordagem que mescla humor ácido e ilustrações didáticas de sua própria autoria, Barbosa busca oferecer uma saída para o cidadão que se sente confuso com o bate-boca eterno nas redes sociais e que já não consegue discernir quem está certo ou errado nas discussões sobre os grandes dilemas da sociedade. E Barbosa inicia a obra pedindo licença para discordar da visão binária que satura os noticiários. Para ele, os polos em disputa não são dois, mas quatro — progressista, conservador, reacionário e isentão —, cada um desempenhando um papel específico na manutenção de um cenário que, segundo ele, está "longe de ser esse preto-no-branco pintado por jornalistas e cientistas políticos". Essa simplificação seria uma das engrenagens que mantém o país em paralisia analítica. A polarização, defende ele, "um fenômeno fabricado de modo a favorecer um status quo conservador".
Ao aprofundar a análise, Barbosa faz uma distinção que considera crucial. O "suposto radicalismo de um dos polos — o progressista — nem se compara ao radicalismo (comprovado) do polo reacionário". Enquanto o polo progressista é descrito como uma "moderadíssima esquerda" que busca retomar o diálogo e unir a sociedade, o reacionário, associado à extrema direita, prega abertamente "golpe, morte, destruição e ódio". As parcelas conservadoras, ao alimentar uma falsa equivalência entre essas duas forças, tentariam nivelar uma postura de diálogo com uma retórica de violência — manobra que serviria para deslegitimar pautas progressistas, tratando-as como ameaça equivalente aos impulsos autoritários da extrema direita.
Um dos trechos mais provocativos do livro aborda o comportamento do polo conservador e dos "isentões" em momentos de crise. É muito comum, explica Barbosa, que conservadores e isentões se unam aos reacionários para isolar os progressistas, gerando um desequilíbrio profundo na polarização que se vê na superfície. Diante de situações que a mídia costuma classificar como "escolhas muito difíceis", os conservadores invariavelmente optam por se alinhar aos reacionários em vez de buscar convergência com os progressistas. Essa aliança tática, para o autor, é o que realmente define os rumos da política brasileira.
Barbosa também dedica crítica feroz aos "inteligentões e inteligentinhos de centro", identificados como principais defensores da narrativa da "eterna crise institucional". Para esses especialistas, o Brasil só avançaria com um nome "novo", capaz de superar o radicalismo de Lula e Bolsonaro por uma terceira via. O autor classifica a proposta como a "falácia da terceira via, que de 'centro' tem nada". Questionado sobre se existe espaço para um centro real, Barbosa não hesita: "Existe. Ou deveria existir. Há muita gente cansada e desencantada com a política e com as instituições, e que se sentiria representada por um nome mais claramente de centro. Mas aí você vê o que tem sido apresentado como terceira via: Tarcísio? Ronaldo Caiado? Romeu Zema? Todos eram bolsonaristas até anteontem, o Tarcísio ainda é. A terceira via é uma construção do sistema para vender um retorno da direita. E direita não é centro. Especialmente uma direita que promete, antes de mais nada, anistiar golpistas."
Diante desse quadro, como desconstruir a fabricação da polarização? "A tese do meu livro é a seguinte: polarização é um efeito natural do debate democrático. No entanto, o establishment conservador passou a vender a ideia de que toda polarização é negativa. Não é. Mas vende-se um discurso fabricado igualando os dois polos no extremismo. Isso se dá porque, entre Lula e Bolsonaro, o establishment — que direciona a opinião pública — sempre vai preferir o segundo, mesmo com reservas", opina o autor O remédio, segundo o autor, é antes de tudo perceptivo. "O cidadão precisa, acima de tudo, abrir bem olhos e ouvidos. Toda postagem de mídia social, toda coluna de jornal, toda opinião veiculada na TV têm um subtexto. Os 'especialistas' se vendem como isentos e racionais, mas cada um deles segue uma agenda. Antes de compartilhar alguma informação ou se engajar em mais um debate inútil, entenda bem quem está falando, o que está sendo falado, qual é o envolvimento da pessoa com a ideologia sendo propagada. Aí é possível identificar qual debate vale a pena travar, e qual deve ser ignorado", aconselha.
A trajetória de Marco Antônio Barbosa como analista da cena brasileira é longa. Ele assina obras como "Velha Nova Era", que compila escritos sobre política, sociedade e mídia produzidos entre 2007 e 2019, e o satírico "Fear & Loathing in Londrina", que reimagina a estética de Hunter S. Thompson no Brasil bolsonarista. O novo e-book atualiza textos publicados originalmente em seu blog no Medium em 2022, agora com ilustrações inéditas e um capítulo de conclusão. Com o tom desafiador de quem pergunta "entendeu ou quer que eu desenhe?", Barbosa oferece o livro na Amazon por um valor simbólico, mantendo gratuidade em PDF para os assinantes de sua newsletter no Substack, onde semanalmente compartilha reflexões sobre cultura, inovação e o mundo corporativo para mais de 5 mil leitores.