Flip 2026 entre poesia, guerra e urnas eletrônicas,

Por Affonso Nunes

A ministra Carmer Lúcia durante mesa redonda na Flip 2026: esta é a sétima participação da magistrada no evento

A 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que já vinha embalada pela homenagem à poeta paulista Orides Fontela (1940-1998), teve em seus dois primeiros dias de programação completa (quinta, 23, e sexta, 24) dois dos dias mais movimentados de sua programação principal, misturando literatura, memória de guerra e embates diretos sobre política e tecnologia.

Depois da abertura de quarta-feira, marcada por uma aula-show do crítico e editor Augusto Massi e por um ensaio-performance da poeta Marília Garcia sobre a obra de Orides Fontela, a Flip entrou em ritmo de programação plena na quinta.

O dia reuniu seis mesas no Auditório da Matriz. Pela manhã, José Tolentino Mendonça e Edimilson de Almeida Pereira discutiram linguagem poética e identidade. Ao meio-dia, os escritores Andrei Kurkov e Maria Reva — ele, autor de diários sobre o cotidiano em guerra; ela, escritora canadense de origem ucraniana e autora do romance "Endling" — debateram os limites éticos de narrar um conflito em curso, como o da invasão russa à Ucrânia.

À tarde, as ficcionistas brasileiras Andréa del Fuego e Paulliny Tort trataram da função da literatura, enquanto o italiano Andrea Bajani e Maria Esther Maciel discutiram relações familiares em seus romances. À noite, Kamel Daoud — vencedor do prêmio Goncourt em 2024 — e a escritora luso-angolana Djaimilia Pereira de Almeida conversaram sobre esquecimento, luto e dever de memória. O dia se encerrou com a estreia do espetáculo "Dalton, que tinha um cachorro", inspirado na obra de Dalton Trevisan, com Denise Stoklos.

A sexta-feira concentrou os dois momentos de maior repercussão fora do universo literário. Na mesa "Água parada água parada água parando", ao lado da escritora alemã Carmen Stephan — autora de um romance sobre a malária narrado pelo mosquito transmissor —, o médico e escritor Drauzio Varella arrancou risadas da plateia com anedotas pessoais, mas também fez uma acusação direta ao afirmar que a Meta, controladora de Facebook, Instagram e WhatsApp, "lucra com estelionatários", responsabilizando a empresa pelos golpes e perfis falsos que circulam no Brasil. A fala ecoou além do público presente em Paraty e ganhou repercussão nas redes e na imprensa ao longo do dia.

Horas depois, às 13h30, foi a vez da ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Cármen Lúcia protagonizar o momento mais politicamente carregado da Flip até aqui. Em sua sétima participação no evento, ela aproveitou a mesa "Estado de sítio, estado de sido, estase" para lançar o livro "Pela Mão do Povo — Democracia e Voto no Brasil" e voltou a defender a segurança do sistema eletrônico de votação, classificando as urnas como invioláveis. A declaração é uma resposta direta a ataques feitos por Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, durante um encontro com diplomatas de 42 países em Brasília na terça-feira (21) — episódio que a ministra descreveu como "mais um resmungo" que repete acusações já feitas por Jair Bolsonaro, sobretudo no ciclo eleitoral de 2022.

Ainda na mesa, Cármen Lúcia defendeu a meta de 50% de ocupação feminina em cargos públicos e privados — hoje as mulheres são 52% da população brasileira, mas ocupam menos de 25% das cadeiras no Legislativo —, rebateu propostas recentes de restringir o voto feminino e demonstrou preocupação com o alto índice de abstenção entre eleitores idosos, para quem o voto é facultativo.

A sexta-feira teve ainda outras quatro mesas: José Godoy e o arquiteto paraguaio Solano Benítez discutindo o uso político do espaço urbano; Flávia Péret e Julieta Correa; Nathacha Appanah, vencedora do Femina 2025, ao lado de Bethânia Pires Amaro; e, encerrando o dia às 19h — no novo horário mais cedo adotado nesta edição —, Katie Kitamura e Marta Pérez-Carbonell debatendo narradores pouco confiáveis.

A Flip segue até domingo (26/7), com destaque para a participação de Zadie Smith no sábado (25/7) e para as atividades paralelas da Casa Sesc, que recebe a ativista Angela Davis no mesmo dia.