A poesia que não pede licença
Na 24ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty, Orides Fontela, a poeta paulista de cinco livros e vida difícil ganha a consagração que a crítica lhe prometia desde os anos 1960
Orides Fontela (1940-1998) escreveu pouco mais de 200 poemas em cinco livros e, com eles, construiu uma das obras mais densas da poesia brasileira do século XX. Na noite de quarta-feira, 22 de julho, a 24ª Flip abriu seus trabalhos em Paraty com a mesa "Entra Furtivamente a Luz", título roubado de um de seus versos. — e que poderia servir de epígrafe para toda a sua trajetória conturbada.
A escolha da autora como homenageada da Flip 2026 é um ato de justiça poética. Nascida em São João da Boa Vista (SP), filha de um marceneiro e de uma dona de casa, Orides foi professora primária antes de ser descoberta pelo crítico Davi Arrigucci Jr. ainda nos anos 1960. Foi Arrigucci quem apresentou seus poemas a Antonio Candido, que ao lê-los exclamou: "Temos aqui poesia e uma poeta". Candido, um dos maiores críticos literários do país, passou a chamá-la de "nossa Rimbaud" — comparação que diz menos sobre a vida atribulada de Orides e mais sobre a capacidade de sua poesia de iluminar o real com uma intensidade que parece vir de outro lugar.
A mesa de abertura, com o crítico Augusto Massi e a poeta Marília Garcia, foi um exercício de escuta atenta. Massi, que foi amigo e editor de Orides, lembrou que o gosto da poeta era "por uma poesia visual e plástica" — e que sua concisão não era pobreza, e sim uma escolha estética radical. Sua poética criou imagens que perfuram o leitor e permanecem. "Relâmpago / o instante / tem dedos de cinza", escreveu ela.
Marília Garcia, que já participara da Flip no ano anterior para falar de sua própria obra, abriu esta edição com uma performance que costurou a poesia de Orides à sua vida pessoal — uma doença recente, a perda de um amigo. O momento mais comovente da noite veio de um achado: Marília compartilhou com o público um poema de Orides escrito num recibo dentro de um livro na biblioteca da PUC-Rio, com a mensagem "Leio minha mão. Livro único" e o pedido "Passe adiante".
Um vídeo de Davi Arrigucci Jr. trouxe a emoção de quem testemunhou a descoberta em primeira mão. Ele descreveu a obra de Orides como "um conjunto formidável, fora do comum" e lembrou o papel de Antonio Candido na divulgação de "Alba" (1983), livro que renderia à poeta o Prêmio Jabuti e, mais tarde, o prêmio da APCA por "Teia" (1996). São os mesmos livros que a editora Hedra relançou este ano, junto com três novidades editoriais: um livro ilustrado para crianças e jovens, uma coletânea inédita de escritos e entrevistas e uma edição revista e ampliada de sua principal biografia.
A curadora Rita Palmeira sublinhou um ponto que a abertura deixou claro: a poesia de Orides é complexa e comporta múltiplas leituras, mas sua biografia — as internações psiquiátricas, a vida sem casa própria, a dependência de amigos — não pode roubar a cena. "Ela contribuiu para que as poetas subsequentes pudessem escrever sobre qualquer assunto e da forma que preferissem", disse. Para a curadora, Orides expandiu o universo da escrita feminina não porque falou de si, mas porque dominou a forma com uma autoridade que não pedia licença a ninguém.
Fora da Tenda dos Autores, a Flip 2026 já se desenha como uma das maiores edições do evento. São 44 casas parceiras — um recorde — e 17 das 21 mesas literárias tiveram ingressos esgotados no primeiro dia de vendas, sinal de que o interesse do público acompanha o peso da programação, que inclui nomes como Zadie Smith, Carmen Lúcia, Andrea del Fuego e Ana Paula Tavares. A Secretaria de Turismo de Paraty já classifica o período da Flip como um dos de maior fluxo de visitantes na cidade, o que reforça o papel do evento não apenas como encontro literário, mas como motor econômico e cultural da região.
SERVIÇO
24ª FLIP - FESTA LITERÁRIA DE PARATY
Até domingo (26)
A programação completa está disponível no site oficial www.flip.org.br. Haverá transmissão ao vivo de mesas selecionadas pelo YouTube.