Paraty é a maior diversão
Em paralelo às celebrações literárias das 24ª Flip, a Casa da Cultura Caiçara, centro de saber paratiense, acolhe a produção audiovisual da cidade como um veio de afirmar diversidades
Caldeirão de poesia, contos, romances e ensaios, a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) fez de sua cidade uma embaixada mundial da literatura, atraindo vozes autorais best-sellers da prosa e do verso. A 24ª edição arranca nesta quarta e vai até domingo, badalando novos veios de escrita. Em meio ao mar de palavras que essa maratona literária levanta, a produção audiovisual - representada pelo cinema - arrumou um jeitinho de provar à multidão de leitoras/es esperados por aquele território de que imagens em movimento ainda são a maior diversão... e uma potente forma de festejar diversidades.
O eixo é a Casa Paraty, espaço oficial da cultura caiçara, que aposta nas manifestações fílmicas como ferramenta de preservação da memória e valorização da identidade local. Com programação gratuita, o espaço reúne uma mesa de debates com a atriz Nanda Costa, o historiador, pesquisador e escritor Diunner Melo e a ativista cultural Gabriela Marsico, além da exibição de quatro produções ligadas às histórias, aos personagens e às tradições do município.
Houve um esquenta nesta terça-feira (21), marcado pelo Cortejo da Ciranda de Tarituba, seguido da cerimônia oficial. Na quarta, o foco foi o público infantil, com teatro, música, dança e oficinas. Entre quinta (23) e sábado (25), a agenda reunirá debates sobre cultura, meio ambiente, audiovisual, literatura, juventude e espaço, com direito a lançamentos de livros, mostra de vídeos, apresentações musicais e espetáculos como o Cabaré Teatral Zé Kleber, além de shows de Luís Perequê, MC Marinho, Realidade Negra, Cirandeiros de Paraty e grupos tradicionais de ciranda. No domingo (26), o espaço permanecerá aberto para visitação da exposição "A Luta de Trindade", encerrando uma programação que propõe apresentar Paraty para além de seu patrimônio turístico, destacando coletivos artísticos e expressões individuais de poesia e música.
"Quem nasce e vive em Paraty sabe que existe uma riqueza enorme nas histórias, nos saberes e nas pessoas que constroem este território todos os dias", destacou Gabriela Marsico, uma comunicadora paratiense, que foi uma das idealizadoras do espaço, operando na mediação da mesa de cinema e audiovisual da Casa Paraty. "O audiovisual permite que essa memória permaneça viva, alcance novos públicos e inspire outras pessoas a contar suas próprias histórias. É uma ferramenta de preservação, mas também de criação e de futuro para quem é paratiense. E esse é o objetivo da Casa, valorizar a criação e saberes do território".
A conversa que Gabriela vai conduzir reunirá diferentes experiências ligadas ao setor. Nanda Costa falará sobre sua trajetória no cinema, no teatro e na televisão, abordando processos de formação artística e os desafios da construção de uma carreira audiovisual. Já Diunner Melo contribuirá com o olhar de quem pesquisa a história da cidade há décadas, estabelecendo conexões entre patrimônio, memória e as narrativas que ajudaram a formar a identidade cultural de Paraty. O debate também discutirá as possibilidades de desenvolvimento do audiovisual produzido no município, refletindo sobre acesso aos meios de produção, formação de novos profissionais e preservação das histórias locais por meio das imagens.
Essa proposta dialoga diretamente com a mostra de filmes organizada pela Casa Paraty, composta por quatro obras que revelam diferentes formas de registrar e reinterpretar o território. Entre elas está "100 Anos de Memória do Sr. Lourenço", documentário dirigido por Gilmara Kíria que acompanha as lembranças de um morador da comunidade de Graúna prestes a completar um século de vida. A obra registra transformações sociais e culturais de Paraty, resgatando práticas como a Ciranda e o Chiba, além das memórias sobre a vida rural e os antigos deslocamentos por trilhas e canoas.
Também integra a programação "Um Olhar Caiçara", produção realizada pela Associação de Moradores de Paraty Mirim. O documentário registra pescadores, mestres artesãos, cozinheiras, jovens cirandeiros e moradores tradicionais em torno de saberes ligados à pesca artesanal, à construção de canoas, às redes de pesca, às lavouras de subsistência, à culinária e às manifestações culturais da comunidade.
A memória artística da cidade aparece em "Luzes nos Submersos Mundos", dirigido por Fabio Canale, com roteiro de Mariana Savioli. O curta revisita a trajetória do poeta, ator e artista plástico Zé Kléber por meio da combinação entre pesquisa documental, depoimentos, performance e construção poética, reafirmando seu lugar no imaginário cultural paratiense.
Completa a seleção "Homenagem ao Mestre Cirandeiro Verino", registro produzido em 2013 durante as comemorações dos 80 anos de um dos maiores representantes da Ciranda de Paraty. O vídeo documenta sua trajetória e evidencia o papel desempenhado pelo mestre na preservação e transmissão dessa tradição para novas gerações.
Paralelamente às atividades da casa, a FLIP vai realizar um painel do longa-metragem "100 Dias", de Carlos Saldanha (de "A Era do Gelo"), sobre a histórica expedição de Amyr Klink pelo Atlântico Sul. O evento acontecerá no dia 23 de julho, às 17h, na Casa da Cultura, em Paraty (RJ). A mediação ficará a cargo do apresentador Marcelo Tas. O bate-papo vai contar com Saldanha, Klink, o ator Filipe Bragança e as roteiristas Elena Soarez e Thais Tavares. A conversa abordará o processo de adaptação de "Cem Dias Entre Céu e Mar" para o cinema.ric