Baseado na crueldade real
Ojornalista Luís Pimentel já perdeu a conta de quantos livros publicou desde que trocou a Bahia pelo Rio de Janeiro, há mais de quarenta anos. Era ator e dramaturgo, então, pretendia continuar no teatro, mas o jornalismo aconteceu em sua vida. Passar por quase todas as redações de revistas, televisão e jornais da cidade, abraçou a atividade e continuou escrevendo, tendo perdido a conta de quantos livros publicou - romances, crônicas, contos, poesia, infanto-juvenis, sobre música e teatro - por diversas editoras.
Agora, chega às livrarias "Queima o velho! e outros contos cruéis", (Dromedário, R$ 60), no qual enfoca situações para as quais os moradores das megalópoles fecham os olhos, única maneira possível de continuar a viver diante da violência e miséria.
A reflexão sobre o desalento da velhice, a resiliência de quem enfrenta a solidão e a total falta de recursos financeiros que só permite sobreviver e não ter uma existência digna são temas que perpassam as 24 histórias, que parecem acontecer na calçada em frente à casa do leitor. Além das vítimas da desigualdade social, protagonizam seus contos os doentes mentais e tantos outros que sofrem com a negligência, a indiferença e o desprezo da população mais favorecida. Embora sejam todos criações ficcionais, os contos também constituem crônicas de nossa era em que a pobreza se torna uma mácula pessoal dentro de um universo que glorifica as conquistas financeiras, a ostentação da riqueza e promove um falso hedonismo simbolizado pela acumulação de artigos de luxo.
"Não vejo crueldade nesses textos. São fatos do cotidiano adaptados para a literatura", acredita Pimentel, cuja obra literária lhe garantiu prêmios nacionais como o II Prêmio Candango de Literatura, Literatura Para Todos, do MEC, Cruz e Souza, da Fundação Catarinense de Cultura, Prêmio Cidade de Belo Horizonte de Dramaturgia, e o 200 Anos de Independência, do Minc. Em 2021, recebeu em Sintra, Portugal, o Prêmio Ferreira de Castro de Ficção Narrativa pelos contos de "Ainda tem sol em Ipanema".
Baiano do sertão, criado em Feira de Santana, Luís Pimentel não situa o cenário de suas narrativas, porém lá estão os elementos da cidade grande, que nem sempre aparecem, mas são espelhados no dia a dia dos personagens. Quem se ressente de estar só, lamenta o quanto a família se dedica a tantos afazeres que impedem o convívio de pais, filhos, avós e netos. Os jovens "bem-nascidos" só querem se divertir ao torturar um morador de rua. Outro tema que perpassa os contos é o distanciamento entre idosos e pessoas de outras faixas etárias, um traço comum nesta época de culto à eterna juventude, quando adultos se submetem a infinitas intervenções para manter as feições e os corpos com a aparência jovial.
O lançamento de "Queima o Velho!" é na sexta (24), às 19h, no bar Bip Bip (Rua Almirante Gonçalves 50, Copacabana).