Uma obra singular na escrita de Marguerite Duras

Evento lança nova edição de 'A Doença da Morte' e promove mesa redonda com especialistas sobre a obra da premiada autora francesa

Por Affonso Nunes

'A Doença da Morte', de Marguerite Duras, ganha nova edição brasileira pela Relicário, editora que vem se dedicando a difundir a obra da autora francesa no país

Marguerite Duras morreu em 3 de março de 1996, em Paris. Nesta terça-feira (23), a Janela Livraria, em Laranjeiras, promove "Marguerite Duras: Escrever o irreparável", encontro que reúne a filósofa Carmel Ramos, a psicanalista Elisabeth Bittencourt, a professora e tradutora Cassiana Stephan e a especialista Luciene Guimarães. Na mesma noite, será lançado "A Doença da Morte", oitavo volume da Coleção Marguerite Duras da editora Relicário.

Filha de pais franceses, Duras nasceu em 1914 em Gia Dinh, na então Indochina Francesa — hoje Vietnã. Passou a infância e a adolescência no sudeste asiático antes de se mudar para Paris aos 18 anos, onde cursou Direito na Sorbonne. Essa vivência asiática marcou profundamente sua obra, que atravessa romances, peças de teatro, roteiros e filmes. Publicou mais de cinquenta títulos, entre eles "Moderato Cantabile" (1958), "Uma Barragem contra o Pacífico" (1950) e a obra que a projetou mundialmente, "O Amante" (1984), vencedor do Prêmio Goncourt, adaptado ao cinema por Jean-Jacques Annaud. Foi também roteirista de "Hiroshima, Meu Amor" (1959), de Alain Resnais, marco da nouvelle vague, e dirigiu filmes próprios, como "India Song" (1976). Sua escrita foi associada ao nouveau roman e ao existencialismo, embora sempre tenha recusado rótulos.

Divulgação - A Doença da Morte

Publicado originalmente em 1982 pela parisiense Les Éditions de Minuit, "La Maladie de la mort" ocupa um lugar singular na obra da autora. São páginas de densidade incomum. O romance narra o encontro entre um homem incapaz de amar, acometido pela condição que intitula o livro, e uma mulher que ele contrata para passar várias noites em um quarto à beira-mar. A tentativa de amor esbarra na impossibilidade de entrega. Escrita em segunda pessoa, a narrativa trata o homem como "você" e a mulher como "ela" — recurso que arrasta o leitor para dentro da cena.

O livro nasceu em circunstâncias extremas. Duras escrevia em Trouville consumindo seis a sete litros de vinho por dia. Quando concluiu as primeiras páginas, mudou-se para Neauphle: parou de comer, continuou bebendo. Incapaz de escrever com as próprias mãos, ditava o texto para Yann Andréa, seu companheiro. O título provisório era "A Scent of Heliotrope and Citron". Em outubro de 1982, foi internada à força no American Hospital de Paris para tratar o alcoolismo. Ao receber alta, revisou o livro.

A obra resiste à interpretação como poucas na bibliografia de Duras. A mulher, que não é apresentada como prostituta, aceita o acordo; o homem quer aprender a amar e descobre que a doença que o habita não tem cura. A autora leva ao extremo temas como misoginia, dor, amor impossível, despojamento da linguagem sem as âncoras biográficas que sustentam livros como "O Amante" ou "A Dor".

O evento propõe ler Duras como interlocutora viva da filosofia e da psicanálise. A mesa articula saberes para pensar o "irreparável", uma dimensão da experiência que a escrita de Duras provoca. A nova tradução, assinada por Cassiana Stephan e Luciane Boganika, chega pelo selo Relicário, que há cinco anos realiza um trabalho sistemático de tradução e difusão da autora no Brasil.

SERVIÇO

MARGUERITE DURAS: ESCREVER O IRREPERÁVEL

Janela Livraria (Rua General Glicério, 324, Laranjeiras)

23/6, às 19h | Grátis