Desonrar pai e mãe
Em 2013, a canadense Alice Munro recebeu o Prêmio Nobel de Literatura pelo realismo psicológico e a habilidade ao retratar a complexidade das relações humanas em seus contos. Dois meses depois de sua morte, em 2024, a filha mais moça, Andrea, escreveu um artigo denunciando a omissão da mãe ao saber que a menina, dos 9 anos até a adolescência, fora vítima de abuso sexual do padrasto. Munro chegou a se separar do marido, mas reatou o casamento.
Alice Munro sempre causava desconforto em quem lia as histórias de mulheres aprisionadas em vidinhas medíocres, sem paixão, sem entusiasmo, conformadas com o destino do pós-guerra. Seus contos dão vontade de gritar, de sacudir aquelas personagens apagadas, que jamais abandonavam as rotinas caretas, tradicionais. Deste lado das páginas, a escritora entendeu que torturas contra a filha eram insuficientes para levá-la a reconstruir uma existência longe do agressor. É possível refletir sobre a opressão sem abraçar quem a denuncia?
Essas tragédias gregas contemporâneas protagonizadas por gente talentosa - Woody Allen se casou com a ex-enteada, Pablo Neruda rejeitou uma filha deficiente, entre tantos outros casos - deveriam levar à rejeição de suas obras? Um dia, Lord Byron foi condenado por seus lendários amores escandalosos e incestuosos. Restou sua poesia, maior do que ele.
Não faltam relatos literários - ficcionais ou não - sobre o incesto dentro das famílias. No entanto, a violência doméstica, muda e aterrorizante, pode manter distância do rompimento de tabus, causando, ainda assim, traumas dolorosíssimos. O italiano Andrea Bajani comprova a máxima de Tólstoi em "O aniversário" (Companhia das Letras, R$): cada família é infeliz à sua maneira. O texto seco, contido sobre um casal de filhos e a mãe, subjugados às determinações de um pai bruto, deu o maior prêmio literário da Itália, em 2025, a Bajani, por essa novela concisa em suas descrições sobre o temor. Cada trecho é uma esfolada no peito. Não importa se é baseada na realidade ou criação literária pura: a violência psicológica é tamanha que, adulto, o filho decide deixar de ver os pais para sempre, diante da anulação do caráter da mãe, conformada com seu papel social. O movimento masculino de abandonar a família, tão corriqueiro no caso dos ex-maridos e pais, é protagonizado pelo filho, que precisa se livrar do tormento de, a cada encontro, reviver as dores da alma experimentadas na infância e adolescência. Acompanhar o rompimento desse filho com a família biológica, o que, na cultura latina, é praticamente uma falha de caráter, faz do leitor cúmplice, mas também culpado pela necessidade de se desligar desse passado apavorante. Ao recusar-se a honrar pai e mãe, Andrea Bajani convoca o leitor a entender, dividir e sofrer a culpa intrínseca que o corrói para se reconstruir na liberdade.