A humanidade no jornalismo
Quase todo jornalista que vive de escrever gostaria de ser o francês Emmanuel Carrére. Escritor, cineasta e roteirista, já foi professor de francês na Ásia, corre o mundo em busca de experiências - incluindo as místicas - que depois transforma em livros de reflexão sobre o mundo contemporâneo e a humanidade.
Embora ele próprio recuse a classificação de parte de sua obra como autoficção (prefere definir como romances de não ficção), tem contado episódios de sua vida em livros que saem do campo particular par por a analisar os impactos sofridos por acontecimentos diversos, entre eles estar no Sri Lanka, em 2004 com a família, em férias, quando ocorreu o tsunami que matou mais de 200 mil pessoas em países banhados pelo Oceano Índico, ou o atentado à redação do semanário Charlie Hebdo, em Paris, em janeiro de 2015, em que 12 pessoas foram assassinadas. Entre os mortos, estava seu amigo Bernard Maris.
O ataque de dois muçulmanos ao Charlie Hebdo foi o ponto de partida de Carrére para o livro "Yoga" (Alfaguara, R$ 87,90), um dos mais pessoais que assinou. Sua consagração como escritor chegara bem antes, em 2000, com o extraordinário "O Adversário" (Alfaguara, R$ 79,90), que acaba de ser reeditado no Brasil. Carrère acompanhou o julgamento de Jean-Claude Romand, que fingia ser médico da Organização Mundial de Saúde. Ao perceber que a farsa seria descoberta, matou os pais, a esposa e os filhos, em 1993.
Ao longo de 18 anos, todo dia Romand saía de sua cidadezinha, na fronteira com a Suíça, e dizia que ia à sede da OMS, em Genebra. Para sobreviver, ele usava o dinheiro da família, dizendo investir em fundos financeiros. Gastava o tempo à toa passeando ou se encontrando com uma amante - que também desconhecia a realidade. Depois de assassinar a família e seu cachorro, Romand encenou um incêndio na própria casa, teria tentado se suicidar com medicamentos, mas foi salvo pelos bombeiros. Acabou condenado a 26 anos de prisão. Cumpriu a pena e está livre.
Antes, durante e depois do julgamento, Emmanuel Carrère trocou cartas com Romand. As inevitáveis comparações com "A sangue-frio", do americano Truman Capote, que cobriu o julgamento e a execução dos assassinos de uma família no Kansas, na década de 1960, são refutadas por Carrère. Ele considera "A Sangue frio" uma obra-prima, porém condena o envolvimento afetivo de Capote com os criminosos. Carrère garante que Romand sempre soube que seu livro não era serviria para sua defesa, mas quis buscar uma dimensão humanizada do homem que decidiu assassinar toda a sua família, sem perder a objetividade jornalística.
A combinação dessa visão humanitária com a cobertura como repórter rendeu-lhe o convite para acompanhar o julgamento dos acusados pelos atentados à boate Bataclan e às imediações de um estádio de futebol em Paris, em 2013, que deixaram 131 mortos. Escreveu crônicas semanais para o jornal L'Obs ao longo de nove meses, comentando os depoimentos de sobreviventes, de parentes das vítimas, dos representantes do Estado e dos acusados na corte. Histórias comoventes que Carrère reuniu em "V13 - O julgamento dos atentados de Paris" (Alfaguara, R$ 89,90), um dos mais sensíveis relatos sobre a violência cuja origem não estaria apenas no chamado fanatismo religioso, mas na retaliação pela exploração colonialista de países europeus coniventes com nações que fomentam guerras alegando motivos falsos, geralmente buscando compensações financeiras para grandes corporações.