Ana Cecilia Impellizieri Martins: 'Nós sabemos quem somos, e gostamos do que nos tornamos'
A imagem de um bazar oriental, ponto de encontro de várias épocas, de culturas e de referências determinou a escolha do nome da Bazar do Tempo, uma editora que descobriu, aos poucos, sua vocação feminista, privilegiando a literatura e a história das pioneiras do movimento no Brasil, dando ênfase a temas — ficcionais ou não — relativos à mulher, à liberdade, à democracia.
O ponto de virada veio em 2018, acredita Ana Cecilia Impellizieri Martins, que criou a Bazar dez anos atrás, quando investiu na publicação de livros que tratam da história do feminismo. Com um catálogo que é referência nos estudos de gênero no Brasil, o planejamento da editora para os próximos dez anos é "manter-se de pé" para executar um projeto de "consolidação e aprofundamento do pensamento crítico no país, com temas ligados aos debates raciais, à nossa história", conta Ana Cecília, em entrevista ao Correio da Manhã.
O número de publicações assinadas por mulheres ainda é inferior a livros de homens, no mercado editorial brasileiro. Como igualar por gênero o número de lançamentos?
Ana Cecilia Impellizieri Martins - Sem dúvida, as vozes das mulheres foram tomando muito mais espaço, sobretudo, na literatura contemporânea brasileira. No entanto, tenho a sensação de que a presença das mulheres ainda não se firmou totalmente entre as grandes premiações. Prevalece um cânone muito masculino, na crítica literária, na literatura, nas bibliografias. Isso começa a ser mudado, já existe uma demanda social e dos atores que estão envolvidos nessas questões literárias e culturais. Há anos em que as mulheres estão nas bibliografias dos vestibulares, ganham prêmios, mas logo depois os homens dominam de novo. Então há um espaço e uma necessidade de consolidação e realmente de mudança do cânone, que é um pouco a nossa inspiração, trazendo obras de mulheres que deveriam ser referência nos seus respectivos campos de produção e ainda não são. Queremos, de certa forma, provocar um pouco essas tensões, esses questionamentos e tentar provocar uma mudança, criando um cânone mais plural, mais diverso.
O feminismo brasileiro ainda é restrito às mulheres de boa escolarização e melhores condições econômicas, o que se refletiria na literatura?
Temos, na Bazar do Tempo, a compreensão das diferenças de perspectiva de um feminismo que nasce no cotidiano, na lida diária, de uma mulher da favela que é muito diferente de uma mulher branca da Zona Sul, o que vemos em "Feminismos favelados", da Andreza Jorge. O feminismo também pode ser encontrado e provocar reflexão, identificação e indagação na ficção. Trouxemos autoras da América Latina, como a Yuliana Ortiz Ruano, autora do "Febre de Carnaval", que de uma população minoritária negra no Equador e de uma família que vive violência sexual ao longo de gerações. A literatura é uma maneira de conseguirmos adentrar em temáticas importantes para a vida das mulheres e para o feminismo, provocando essa identificação de um outro caminho que não seja necessariamente o caminho da teoria, o caminho da não ficção.
Qual é a importância do Clube F., o clube de leitura da Bazar do Tempo?
O Clube F. começou um pouco antes desse grande boom dos clubes de leitura no país. Para a editora, além de trazer todo mês uma obra inédita de uma autora, estrangeira ou brasileira, ele conseguiu formar e manter uma comunidade. A perenidade desse grupo, que hoje gira em torno de 500 pessoas, garante uma certa segurança para apostar e adquirir títulos com direitos autorais um pouco mais caros no exterior, e assim publicar autoras e autores renomados. Ao consolidar, de um lado, essa comunidade, e, de outro, esse conjunto de livros que chamamos de biblioteca feminista essencial, que passamos a mover nossas escolhas editoriais, equilibrando livros de não ficção com livros de ficção de vertentes diferentes para poder apresentar, da maneira mais ampliada possível, esse panorama gigante de grandes autores em diferentes áreas do pensamento e da criação.
Quais são os planos da Bazar do Tempo para os próximos dez anos?
Nós sabemos quem somos, e gostamos do que nos tornamos. Não queremos ser outra coisa, queremos aprofundar nossa vocação, seguir fazendo livros, abrindo espaço para autoras e autores e seguir também publicando quem está conosco há muito tempo, como o Luiz Antonio Simas, que fala de Brasil. Para os próximos 10 anos, espero, primeiro, que a gente consiga estar de pé e sempre aprofundando e consolidando o nosso projeto editorial.