CRÍTICA / LIVROS: A barbárie

Por Olga de Mello - Especial para o Correio da Manhã

Gisèle Pelicot relata com realismo cortante os abusos particados contra ela por seu ex-marido

Na rearrumação de estantes em casa, casuais vizinhanças entre autores acontecem. Elsa Morante está ao lado do ex-marido Alberto Moravia. Neige Sinno, autora de "Triste Tigre", contundente análise do incesto, partindo de sua trágica experiência de estupro na infância pelo padrasto, está ao lado de "O consentimento", de Vanessa Spingora, que demorou mais de três décadas até relatar seu romance, iniciado aos 14 anos, com o escritor Gabriel Matzneff (então com 49), um pedófilo bissexual, até pouco tempo elogiado por sua arte e seus costumes.

Os relatos da violência real contra mulheres se sucedem, sem o acolchoamento ficcional de "Lolita", de Nabokov, cujo texto responsabilizaria a vítima pelo abuso - ainda que seja ficção e narrada pelo pedófilo. A última sensação do mercado editorial é a autobiografia de Gisèle Pelicot, "Um hino à vida: a vergonha precisa mudar de lado" (Companhia das Letras, R$ 69,90), a mulher que durante dez anos foi drogada pelo hoje ex-marido para ser estuprada - desacordada - por outros homens. Ao longo desse período, ela teve problemas de saúde, com diversas infecções ginecológicas, jamais atribuídas à conduta sexual. Também sofria com constantes lapsos de memória, além de adormecer repentinamente em diversas ocasiões sociais.

O casamento era aparentemente feliz, apesar de problemas financeiros severos. A descoberta das agressões acontece quando uma denúncia de filmagem ilegal de mulheres em uma loja chega à polícia, que recolhe o celular de Dominique Pelicot, onde há numerosos vídeos de desconhecidos estuprando sua mulher, inconsciente. Os homens eram convocados por Pelicot em sites de - como classificar? - pervertidos. Apenas 53, entre cerca de 70 abusadores, foram identificados e condenados a penas de reclusão.

A filha do casal, Caroline, lançou, em 2025, "Eu nunca mais vou te chamar de pai - Transformando o trauma familiar em uma luta coletiva" (Planeta, R$ 47,90), no qual descreve seu desespero e dos dois irmãos, também adultos, com a descoberta dos crimes de Dominique Pelicot. Também foram encontradas fotografias de Caroline adormecida e seminua, nos arquivos do pai, mas Pelicot afiançou que jamais teve qualquer contato sexual com a filha. Tanto Gisèle quanto Caroline relatam a dissolução da confiança dentro do grupo familiar. Os sentimentos se alternam entre sensações de desamparo, decepção e revolta, todas dirigidas ao pai, porém, com reflexos nas relações da família inteira.

Mais de 370 milhões de meninas e mulheres vivas hoje - ou 1 em cada 8 - sofreram estupro ou abuso sexual antes dos 18 anos, segundo o Unicef. No Brasil, estima-se em 822 mil os casos de estupro, o equivalente a dois por minuto, afetando, em sua imensa maioria, mulheres, informa o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). A subnotificação é alta. O registro no país corresponderia a cerca de dez por cento dos casos. Às vésperas do 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, o Instituto Patrícia Galvão divulgou pesquisa recente, tendo constatado que 72% das vítimas com até 13 anos, foram violentadas dentro da própria casa. Em metade dos casos, o agressor foi um parente; em um terço dos relatos, os autores da violência eram amigos ou conhecidos das famílias.